2 de agosto de 2009

“Ensaio sobre a cegueira” José Saramago

Já tinha ouvido falar muito desse livro e agora com o filme me puxou mais ainda a curiosidade. Encontrei no Blog Tribuna Imprensa, da Fernanda Miranda um texto muito bom sobre isso e também em outro Blog que eu gosto, o Tabuleiro de Palavras outro texto interessante. Então...

Como seria se todos ficássemos subitamente cegos?

Parece algo inimaginável, não é? Mas para José Saramago não, o grande escritor português, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1998. É impressionante a capacidade de Saramago de tocar a alma humana, tanto pela simplicidade de escrever coisas tão óbvias, mas que deixamos de enxergar, quanto pela profundidade de percorrer caminhos que preferimos esquecer para permanecermos no egoísmo a que julgamos “cegamente” ser condição para a nossa sobrevivência.
A “Treva Branca” é como se denomina a cegueira súbita que acomete os personagens da trama, começando por um e se espalhando por toda a cidade. A imagem do inferno é dilacerante. E o que será que acontece depois? Separei algumas frases do livro que achei muito pertinentes:
“Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais.”
“Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos”.
“A experiência da vida é a mestra suprema de todas as disciplinas.”
“É dessa massa que somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.”
“Só num mundo de cegos as coisas serão o que verdadeiramente são”

“Uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”


http://tabuleirodepalavras.blogspot.com/


José Saramago, a Crise Mundial e a Cegueira Branca

Eu já queria falar sobre o José Saramago por ocasião do lançamento do filme ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, que deu até confusão entre... os cegos.
Aí, Zé Eduardo, meu amigo, me mandou ontem uma matéria da Agência Lusa sobre o escritor português e sugeriu que eu falasse dele...
A Agência Lusa noticiou que Saramago, durante a entrevista coletiva do filme de Fernando Meirelles, em Lisboa, analisou a atual crise do sistema capitalista afirmando que Karl Marx "nunca teve tanta razão como agora".

"Onde estava todo esse dinheiro (desbloqueado para resgatar os bancos)? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos", disse Saramago.
Na seqüência, ele emendou: "Marx nunca teve tanta razão como agora, mas as piores conseqüências ainda não se manifestaram". Ao ser ouvido sobre o vínculo entre o tema de seu romance e a crise financeira, o escritor respondeu que "sempre estamos mais ou menos cegos, sobretudo, para o fundamental".
Aproveitando o gancho, digo que muita gente, inclusive os tais cegos que queriam embargar o filme – ou por não conhecer a obra de Saramago ou por não terem condições de entendê-la mesmo (!!) – estão dizendo muita besteira sobre ‘Ensaio Sobre a Cegueira’.
A história começa com um homem dirigindo seu carro. Do nada, diante de um semáforo, ele perde a visão. Mas logo se dá conta de que sua cegueira é branca. Logo também outras pessoas perdem a visão e o problema, aparentemente sem solução, se torna epidemia.
Com medo do contágio, as autoridades excluem os cegos e os colocam em espaços como sanatórios. Lá, os homens são colocados em condições subumanas e vivem situações que levam os homens e mulheres a agir conforme seus instintos de sobrevivência mais primitivos e animalescos. Saramago usa recurso inverso ao de Guimarães Rosa. Enquanto o escritor brasileiro humaniza os animais – veja ‘O Burrinho Pedrês’ – o português mostra a que ponto da animalização o homem pode chegar de acordo com as condições em que vive.
E é disso que a cegueira de Saramago trata. A cegueira branca não é cegueira física. A cegueira branca é a cegueira social. É a cegueira para a fome, para a exclusão, para a sobrevida a que alguns homens submetem outros como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Como diz Zé Eduardo, Saramago, quanto mais velho fica, mais lúcid
o está. Amém!
Abaixo, trechos de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’
“O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.”
“O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça”
“Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tomando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis.”


“cegos de olhos e de sentimentos, porque os sentimentos com que temos vivido e que nos fizeram viver como éramos, foi de termos olhos que nasceram, sem olhos os sentimentos vão tornar-se diferentes, não sabemos como, não sabemos quais (...) Dantes, quando víamos, também havia cegos, Poucos em comparação, os sentimentos em uso eram os de quem via, portanto os cegos sentiam com os sentimentos alheios, não como cegos que eram, e ainda vamos no princípio, por enquanto ainda vivemos da memória do que sentíamos.

"Um após outro, todos foram cegando, com os olhos de repente afogados na hedionda maré branca que inundava os corredores, as camaratas, o espaço inteiro. Lá fora, no átrio, na cerca, arrastavam-se os cegos desamparados, doridos de golpes uns, pisados outros, eram sobretudo os anciãos, as mulheres e as crianças de sempre, seres em geral ainda ou já com poucas defesas, milagre foi não terem saído disto muitos mais mortos para enterrar. Pelo chão, espalhados, além de alguns sapatos que perderam os pés, há sacos, malas, cestos, a derradeira riqueza de cada um, agora para sempre perdida, quem vier aos achados dirá que o que lá leva é seu."