19 de agosto de 2009

Miragens


Sinto a música chegar ao fim. Com o corpo esticado no sofá e o sono a me conduzir por dentro, não ofereço resistência ao silêncio que vem tomando a sala, povoando minha mente em espiral.
As memórias sobrepõem-se umas às outras digladiando com minha lucidez, agora ínfima. Faço a passagem do mundo real para o mundo dos sonhos. Era menino e estava sentado à sombra de uma árvore, comendo caju, descalço, despenteado. Um enorme cavalo branco vinha trazendo consigo a criatura.
Os olhos cintilantes de um leve azul escuro; os longos cabelos ruivos, encaracolados; o véu na cabeça. Levantei-me e olhei-a de frente, não mudara. Estendi-lhe as mãos para tocar mas senti o vazio. A cadeia surreal do sonho irrompeu-se de volta para a sala. Tateei o ar como quem por algo procura. Balbuciei um nome inaudível e o sonho rumou ao infinito. Longe de mim interpretar certos mistérios.

(Exatos)