10 de setembro de 2009

Vivendo a música internamente

"Na música todos os sentimentos voltam a seu estado puro e o mundo não é nada mais do que música feita realidade", afirmou em certa ocasião o filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer. Para a flautista espanhola contemporânea Magdalena Martínez, "a música é a arte mais direta porque entra pelo ouvido e atinge o coração".

Alguns especialistas, como a psicoterapeuta e ao mesmo tempo concertista María José López Sariñena, concordam com estas ideias, porque as experimentam diariamente em sua relação particular com pacientes e alunos, e ao mesmo tempo com os instrumentos e as partituras. Além disso, propõem experimentá-las, se aproximando da música de uma maneira cada vez mais profunda e intensa.

"Com um pouco de prática, se pode chegar a ter a sensação de ser a própria música. Quando se alcança a sensação de ser a própria música, uma canção ou uma peça deixam de ser uma série de sons harmônicos que são escutados ou dançados, para se transformar em uma experiência de desfrute sensorial e crescimento interior", diz esta professora e intérprete de música, que também trabalha em psicoterapia.

Um dos requisitos básicos para poder viver a música de uma maneira mais intensa e inclusive fundir-se com ela, está em treinar o ouvido para poder escutá-la em todos os seus matizes.

"Nossos ouvidos costumam estar 'abertos' à infinidade de estímulos sonoros, desde a rádio e a televisão, até os sons urbanos ou o último sucesso musical, e infinidade de fontes de decibéis. No entanto, paradoxalmente costumam estar 'fechados' aos demais, porque não nos escutamos uns a outros quando falamos", diz a especialista. "Escutar pode se transformar em uma revelação incrível se for um ato realizado com consciência e atenção", afirma María José López.


Ginástica dos ouvidos.

Para treinar a audição, é preciso prestar atenção ao escutar as outras pessoas e procurar estar com elas. É preciso escutar o que nos dizem e como nos dizem: sua voz e seus matizes. Por outro lado, você escuta a si mesmo quando se dirige aos demais? O que suas palavras, voz e entonação transmitem?

"É conveniente experimentar com os sons. Pegar um papel e amassá-lo, quebrar um galho, esmigalhar uma folha seca, esfregar os dedos perto do ouvido, atirar uma pedra em um tanque, abrir uma torneira e deixar correr a água, são experiências auditivas que têm 'sua própria música'", diz a concertista.

Desfrutar de uma música agradável, do canto dos pássaros, do som de um gongo ou de um sino podem fazer ressoar sensações insuspeitadas em quem os escuta.

A especialista também nos explica que existe um "experimento filosófico" de 20 a 120 minutos de duração, que pode ser utilizado regularmente como um método para expandir nossa denominada "realidade interior".

Consiste em isolar-se em um quarto, desligando todos os aparelhos (telefone, televisão, rádio etc.) menos o equipamento de música, e deixar tocar uma música que nos inspire, no maior volume possível. Assim nos aproximamos da música, através de seus ritmos, dos "aromas" que sugere.

"Relaxamos os músculos, entramos no som, nos deitamos no chão, no sofá e nosso corpo se torna pesado. Fizemos parte da música. Viajamos pelos ritmos, quase mágicos, rituais aos que ela, a música, nos convida. Tudo é música nesse momento", diz a terapeuta.

Segundo nos indica, "o corpo, a mente, os desejos, o intelecto não existem nesse instante. Só há música. A música que somos. Perderemos a sensação de poder dar palavras ao que experimentamos, visto que quando pensamos, passamos de ser música a escutar música. Trata-se de diluir o eu, estar vazios e presentes no momento, sem palavras, sem nomes".

"É então quando se adquire a possibilidade de se observar em uma nova esfera, longe de toda condição social ou material: um estado em muitas ocasiões definido pelos rituais xamânicos dos aborígines americanos", diz María José López.

Definitivamente, segundo a especialista, se trata de ver-se em outro contexto, flutuante, de fora, com uma infinidade de possibilidades, sem rancores, nem preocupações.

Nesse estado, tudo é música interior experimentada em seu estado mais puro. Nesses momentos também tem significado o velho ditado: "Se o mundo desaparecesse, só restaria a música".


María Jesús Ribas.