11 de maio de 2010

Vazamento no Golfo expõe fissuras em debate sobre prospecção nos EUA

Por Décio Viotto
A plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum, continua despejando diariamente 800 mil litros de óleo no mar e, provavelmente, entrará para a história como um dos mais dramáticos acidentes ambientais dos Estados Unidos. Instalada no Golfo do México, a cerca de 70 quilômetros da costa, em frente a Nova Orleans, a plataforma explodiu no dia 20, afundando dois dias depois, após causar a morte de 11 pessoas. Por isso, a pergunta que se faz é por que a Deepwater Horizon estava lá, com autorização do governo norte-americano? "Porque as reservas do maior importador e consumidor de óleo do mundo podem estar minguando", responde Moacyr Duarte, pesquisador sênior de análise de riscos da Coppe/UFRJ e um dos maiores especialistas brasileiros em riscos ambientais e tecnológicos. Até 2008, a exploração era proibida naquela região do lado americano do Golfo do México. Mas a moratória foi suspensa por George W. Bush, com anuência do Congresso americano e, em outubro de 2009, a Deepwater Horizon iniciou suas operações no chamado campo de Mississipi Canyon dentro do bloco 252 arrematado pela BP. O vazamento certamente amplia a pressão sobre a Casa Branca para elevar a supervisão na prospecção petrolífera no Golfo do México. Contudo, é improvável que a perfuração oceânica na área seja proibida. Os ventos da política parecem indicar isso. Os republicanos defendem maior produção interna de petróleo para reduzir a dependência do óleo estrangeiro. Recentemente, a Casa Branca apoiou um compromisso que expandiria a exploração doméstica em alto-mar em troca de apoio para sua política de redução das emissões de carbono, um dos temas em destaque na agenda dos democratas.
A plataforma flutuante, que custava US$ 500 mil por dia para a BP, estava alugada até setembro de 2010, mas a companhia britânica recentemente havia prorrogado o contrato até 2013. Desde quando a plataforma explodiu e afundou, estão sendo jogados diariamente no mar 800 mil litros de petróleo ou o equivalente a 5 mil barris. É uma cena de "desastre sem precedentes", como descreveu a secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos, Janet Napolitano. Com isso, a mancha negra já ocupa uma área equivalente a todo estado de Sergipe, e continua ameaçando, cada vez mais, quatro estados do Sul dos Estados Unidos -Alabama, Louisiana, Mississipi e Flórida.
Para tentar conter o vazamento, a BP levou para o local um equipamento metálico com o qual esperava recolher o óleo e colocá-lo em navios apropriados. Quando técnicos da empresa tentavam baixar a estrutura até o local do desastre, cristais de gelo se formaram no interior da estrutura e entupiram a saída por onde o óleo subiria à superfície para ser coletado. Com esse fracasso anunciado no sábado (dia 8) e mantido o ritmo atual de vazamento, esse acidente poderá superar o vazamento do superpetroleiro Exxon Valdez que, em 1989, despejou 42 milhões de litros de petróleo, no Alasca, no pior acidente com óleo dos Estados Unidos. Da plataforma da BP já vazaram 13,3 milhões de litros.
Esse volume já supera a soma dos dois maiores desastres ambientais provocados no Brasil pela Petrobras nas últimas três décadas, quando foram lançados nove milhões de litros de petróleo. Em 18 de janeiro de 2000, um rompimento de um duto da estatal, que liga a Refinaria Duque de Caxias ao terminal da Ilha d'Água, provocou vazamento de quatro milhões de óleo combustível na Baía de Guanabara. Laudo da Coppe/UFRJ divulgado no dia 30 de março daquele ano concluiu que o acidente foi causado por negligência da Petrobras, já que as especificações do projeto original do duto não foram cumpridas.
Cinco meses depois, no dia 16 de julho, cinco milhões de óleo foram jogados nos rios Barigui e Iguaçu, no Paraná, por causa da ruptura da junta de expansão de uma tubulação da Refinaria Presidente Getúlio Vargas. O acidente levou duas horas para ser detectado. "Os riscos de exploração de petróleo existem em todo o lugar", diz Celso Morooka, doutor do Departamento de Engenharia do Petróleo do Centro de Estudos do Petróleo Cepetro/Unicamp. "Mesmo seguindo normas de segurança, os acidentes acontecem e cada um, infelizmente, é um aprendizado. O que precisa estabelecer é um plano de contingência para o acidente à altura do impacto que ele poderá causar naquela região."

No Brasil
Para Duarte, é necessário discutir "a aceitabilidade do risco que se está assumindo". O acidente da BP não teria acontecido no Brasil ou na Noruega, segundo publicou parte da mídia internacional e com a qual concorda o pesquisador da UFRJ. "A BP perfura a 1,5 mil metros e a Petrobras já passou dos dois mil metros faz tempo. A estatal é líder mundial em exploração em águas profundas. Neste particular não estamos nada mal", afirma Duarte.
O pesquisador, no entanto, salienta a importância da regulação e da legislação. "No Brasil, a discussão é democrática e a participação acadêmica é aceita. Além disso, aqui a regulação é mais centralizada, o que permite um controle mais amplo. Se a regulação dos Estados Unidos fosse como a do Brasil e da Noruega, a situação lá seria outra." Deve-se ainda levar em conta que a Petrobras, de acordo com Duarte, "tem um estoque de tecnologia para fazer frente aos problemas que se apresentam." A indústria a brasileira "está na vanguarda", concorda Morooka. "Somos bem preparados."
A BP, lembra Duarte, atua em várias partes do mundo, como em Angola e no Brasil. "Nos Estados Unidos, a tragédia por enquanto é ambiental. Os americanos não vão morrer de fome, os pescadores da Louisiana também não. Eles pescam frutos do mar de alto valor agregado. Eles vão ser indenizados."
Se fosse em Angola, o pesquisador da UFRJ diz que a gravidade seria potencializada, pois atingiria população que vive da pesca de subsistência. "E o país não tem equipamentos e gente preparada para enfrentar uma catástrofe deste ou de qualquer outro porte." No Brasil, onde tem participação na camada pré-sal, a BP vai seguir as leis e as regulações brasileiras. "Ela dança conforme a música. Não temos as mesmas condições americanas e angolanas", detalha Duarte.
Duarte garante que este acidente "foi um terremoto e nada mais vai ser igual na indústria petrolífera". Para ele, tudo vai entrar em debate. "As decisões técnicas, a normatização dos poços, o que deu errado na plataforma". Tanto que uma das primeiras medidas do presidente Barack Obama foi proibir temporariamente a exploração naquela região do Golfo do México, além de revogar a lei que estabelecia o teto de US$ 75 milhões para indenizações em acidentes deste tipo.
"Os EUA vão expor um belo buraco no balanço da BP", aposta Duarte. A resseguradora Swiss Re calcula que o custo do vazamento para todo o setor ficará entre US$ 1,5 bilhão e US$ 3,5 bilhões. Especialistas consultados acreditam que somente com a limpeza a conta vai passar de US$ 7 bilhões.
Em Biloxi, no Mississipi, o vento espalhou um protesto escrito nas areias da cidade marítima, de que "a BP cheira mal". No Brasil, o diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, confirmou que a estatal está auxiliando a empresa no Golfo do México. O apoio parte da subsidiaria americana da estatal, a Petrobras America. A previsão para os próximos dias é de tempo bom na região, o que poderá facilitar o combate à mancha.