19 de fevereiro de 2011

Crônica de Luiz Fernando Veríssimo sobre o "BBB"

Quem deseja o bem e o futuro honrado do Brasil deve difundir esta mensagem... A Globo precisa saber que existem brasileiros inteligentes e honrados nesta terra...  Palmas para o nosso corajoso cronista...

Crônica de Luiz Fernando Veríssimo sobre o "BBB"

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB),
 produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos
 chegar ao fundo do poço...A décima primeira (está indo longe!) edição
 do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser
 difícil, encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho
 atentado à nossa modesta inteligência.

Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu
 fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo,
 principalmente pela banalização do sexo. O BBB 11 é a pura e suprema
 banalização do sexo. Impossível assistir, ver este programa ao lado
 dos filhos. Gays, lésbicas, heteros... todos na mesma casa, a casa dos
 “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra
 gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza
 ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 11 é a
 realidade em busca do IBOPE..

Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 11. Ele prometeu
 um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas
 parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.

Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do
 “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o
 negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou
 piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta,
 a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM
 que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).

Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e
 escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro
 de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível.
 Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente
 bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se
 morrer tão cedo.
 Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte
 da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da
 dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro
 repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e
 meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente,
 chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis?

São esses nossos exemplos de heróis?

Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros,
 profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os
 professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores
 incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com
 dedicação, competência e amor, quase sempre mal remunerados..

Heróis, são milhares de brasileiros que sequer têm um prato de comida
 por dia e um colchão decente para dormir e conseguem sobreviver a
 isso, todo santo dia.

Heróis, são crianças e adultos que lutam contra doenças
 complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais
 saudável e digna.

Heróis, são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs,
 voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de
 carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna
 heroína, Zilda Arns).

Heróis, são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam
 suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como
 mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não
 acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos
 telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro
 estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à
 criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e
 moral.


E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a
 "entender o comportamento humano". Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da
 Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de
 pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta
 centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e
 setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil
 reais a cada paredão.

Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia
 se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia,
 alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?

(Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 
5.000 computadores!)
 
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e
 indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário
 Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema...,
 estudar.... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... ,
 telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar
 com as crianças... , namorar... ou simplesmente dormir.

Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir
 o que ainda
 resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.