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15 de fevereiro de 2013

UMA MULHER CHAMADA MARIA


Ela se chama Maria Tavares – 56 anos, 1.60m, de altura, olhos pequenos e ágeis, algumas sardas no rosto enérgico mas jovial. Durante os últimos 32 anos, vendeu tudo quanto possuía para sustentar os seus anjos, cerca de 2 mil presidiários arrancados à prisão e recuperados graças ao trabalho quase anônimo dessa mulher de aparência tão comum. Enquanto penalistas e outros especialistas em problemas penitenciários debatem interminavelmente nos congressos, ela simplesmente resolveu intervir e agir, por gosto, sem se importar com teorias nem medalhas.

O texto acima é de autoria do jornalista Alexandre Garcia e foi publicado no Rio de Janeiro, no Jornal do Brasil, em 07.10.74.
Maria Tavares tem hoje 101 anos de idade e segue morando com as mesmas pessoas, privadas da liberdade, que buscou recuperar durante a sua vida centenária. Ninguém sabe ao certo quantos presidiários ela resgatou depois que Alexandre Garcia escreveu o artigo acima, mas com certeza foram outros milhares.

“Não existem pessoas irrecuperáveis, mas sim métodos inadequados de tratamento”, é o preceito histórico que nunca abandonou. Sua longevidade está atrelada à sua causa. Não quer deixar quem sempre ajudou. Sabe que não existe quem possa sucedê-la.

Corajosa, não há notícia de outra mulher que, na condição de cidadã, tenha adentrado em uma prisão brasileira antes de Maria Ribeiro da Silva Tavares. Foi ela que, com autorização do Estado, levou para sua própria casa 36 presos da famigerada Casa de Correção de Porto Alegre, na década de 1940, alguns com penas superiores a 100 anos. Em 1957, quando incendiou a Casa de Correção, os presos somente permitiram a entrada dos bombeiros quando viram Dona Maria, na frente do prédio, sentada sobre os para-lamas do carro. Foi ela também que, em 1947, fundou o Patronato Lima Drummond, instituição penitenciária que existe até hoje, sendo o estabelecimento prisional mais antigo de Porto Alegre (o Presídio Central somente foi construído anos depois), por muitos considerada a melhor unidade penal de regime semiaberto do Estado do Rio Grande do Sul, caracterizando-se pelo êxito na recuperação e na ressocialização de presos.

Ao entrevistar os presos, buscava encontrar alguma coisa de bom, por menor que fosse. A partir daí iniciava o trabalho individual de melhora, de transformação do delinquente em uma pessoa de bem - “A primeira coisa que eu devolvo a um homem é a confiança e a responsabilidade”. O princípio da individualização da pena somente foi contemplado pela legislação brasileira décadas mais tarde. Previsto na Constituição de 1988, até hoje as penitenciárias brasileiras engatinham na sua aplicação.

Maria Tavares nasceu antes do seu tempo. Praticou caridade não com enfermos, velhos, dontes ou crianças, mas sim com bandidos e delinquentes, com aqueles que todos rejeitam e excluem. É preciso um coração muito grande para conseguir realizar, por décadas a fio, atos dessa grandeza. A nação brasileira ainda não tem condições de compreendê-la, de saber quem ela é e o que fez. Segue anônima para a história, mas talvez um dia o seu nome seja lembrado como é o de Anita Garibaldi.

Um comentário:

  1. Muito oBRigada Dona Maria - A Senhora é inspiração PAra todas n'os brasileirass.

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