17 de junho de 2013

A força dos indignados do Brasil

 
Juremir Machado

O Brasil está na rua e muita gente nada está entendendo.
Por que um país com déficit de hospital deve financiar estádios de futebol?
Por que mesmo para os estádios privados um país com falta de leitos em hospitais deve emprestar dinheiro público a juros camaradas e indecentes?
Por que um país aceita mudar suas leis para contentar a Fifa?
Por que um país que não pode manter as passagens de ônibus acessíveis à maioria da população gasta dinheiro para se “promover lá fora”?
Boa parte da mídia não está entendendo os nossos indignados.
As críticas ao vandalismo dos manifestantes são uma maneira de esconder o vandalismo do aumento das passagens, a violência das polícias e a imoralidade das transferências de recursos públicos para empreiteiras e empresários.
A presidente Dilma foi vaiada em Brasília por ser conivente com isso.
A direita acha que é saudade dos tucanos.
Está enganada.
Os indignados querem andar para frente.
O Brasil está vivendo um grande embate entre progressistas e conservadores.
Os conservadores estão por trás do projeto de lei dos nascituros, da tentativa de impedir a demarcação das terras indígenas, da lei de internação involuntária, sem aval de um juiz, de consumidores de drogas, da investida contra as atribuições investigativas do Ministério Público, das manobras para flexibilizar a lei da Ficha Limpa e de muita coisa desse gênero.
Os conservadores estão em todos os partidos, inclusive no PT.
Todos com aval da boa parte da mídia.
Conservadores recorrem à velha retórica macartista contra a “terrorista”.
Seria cômico não fosse trágico.
Nas ruas, os indignados não sentem falta da ditadura militar. Querem é mais democracia. Por que não podem se manifestar sem enfrentar balas de borracha? Por que devem apanhar? Por que devem ser dispersados?
Há relatos de ações provocativas de policiais à paisana quebrando o mobiliário urbano para colocar a culpa nas costas dos indignados e justificar a repressão.
Meio século depois, os indignados querem completar as reformas de base de Jango. E, mais uma vez, os conservadores querem impedir esse avanço.
Em 1964, parte da esquerda tentou moderar os desejos da massa.
Hoje, o PT, instalado no poder, não sabe o que fazer com tantos indignados.
E em muitos lugares, como em São Paulo, manda reprimir duramente.
Os indignados estão certos.
Estão cansados de esperar uma explicação: por que há dinheiro para estádios de futebol e não para hospitais, escolas e passes livres de transporte público?
O que o Brasil vai ganhar enriquecendo a Fifa?
Para que servirá o elefante branco que é o estádio Mané Garrincha?
O povo não é bobo, não acredita mais na Globo, dizem muitos jovens.
Nem na parceira da Globo com o governo do PT.
Nem na falta de explicações dos governos.
Nem nas planilhas das empresas de ônibus.
A violência dos indignados é um sintoma: sinaliza uma insatisfação que já não pode ser contida, não pode ser abafada, não pode ser ignorada.
Uma democracia não pode ser vivida como paz dos cemitérios.
A direita adoraria estar em 1964 para dar um golpe a silenciar a indignação.
Desta vez, seria certamente pisoteada.
Que tempos!
A esquerda financia o “crack” do povo.
Assim como Médici, o mais hediondo e violento ditador brasileiros de todos os tempos, usava o futebol como ópio da massa em 1970.
Pra frente, Brasil!