1 de julho de 2013

17 MILHÕES de pessoas vão às ruas no Egito e surpreendem o mundo


Milhões de egípcios às ruas. E eu arrependido por cá, por não ter escrito essa matéria anteriormente, pois já sabia que tudo aconteceria. Meu arrependimento, acreditem, não tem limites, assim como a coragem do povo egípcio, ao qual passei a admirar imensamente. Muito por causa dos amigos que por lá fiz. – digo que já sabia da manifestação, pois ela foi planejada e quando estive por lá (dia 15/16/17, conversei muito com um pessoal sobre o que aconteceria no dia 30).
Os jornais pelo mundo falam em 14, 17, 19 milhões de pessoas nas ruas. O número definitivo, ninguém terá. E não chega a ser tão importante, pois a adesão maciça é mais relevante do que cravar estatísticas.
“30 de junho será O dia pro Egito. Estamos com medo do que pode acontecer. Ansiosos, só esperando”, foi o que me disse, entre tantas conversas, Mohammed Mohsen, ativista e guia turístico do país.
Reivindicações
As principais reivindicações dos manifestantes se dava com o fato do atual presidente, Mohamed Morsi, em termos claros, não fazer absolutamente nada. Não ter, principalmente, jogo de cintura para lidar com as crises e greves recorrentes, não saber satisfazer os trabalhadores, nem estimular a economia. Isso pra não mencionar o aumento da criminalidade e a tentativa de colocar a religião acima do governo, inclusive com apoio de radicais religiosos.
Quanto à religião, vale pontuar ainda que o povo egípcio – parte dele, óbvio – exige um governante laico, que não se influencie por líderes religiosos e aja por “fala própria”, ao invés de usar a “vontade de Deus”.
E aí você pode me perguntar o seguinte: “Mas, só dois anos e meio após revolução e um ano de presidência, não é pouco tempo para algo realmente mudar?”.
Segundo eles, não. Principalmente porque o horizonte futuro não aparentava nada de bom. O vislumbre permanecia obscuro e nublado, sem possibilidade de melhora.
“Por que o elegeram, então?”
Morsi, que já se dizia eleito, teve 51,7% dos votos no segundo turno, disputado no fim de semana passado.
Ele conseguiu 13.230.131 votos, contra 12.347.380 para o brigadeiro da reserva Ahmed Shafiq, ex-premiê do regime do derrubado ditador Hosni Mubarak. [retirado do g1]
Ou seja, além da disputa ter sido absurdamente apertada, vale pontuar que era a primeira eleição democrática do país. PRIMEIRA! Dá pra acreditar?
Milhões nas ruas
O primeiro ponto que acho interessante esclarecer são os fatores demográficos que ajudam na “rápida” aglomeração de pessoas na praça do Cairo. O país possui uma população em torno de 90 milhões de habitantes, num território de aproximadamente 1 milhão de km². Porém, o território “habitável”, falam em metade da metade – ou menos.
Como você pode ver aqui: 
Ou seja, todo mundo está muito perto, diferente do Brasil, que tem dimensões continentais e pessoas espalhadas por sua área. Só para se ter uma noção, eles falam que na “Cairo do dia” [horário de trabalho], circulam 30 milhões de pessoas diariamente.
Outro ponto importante, o domingo, para eles, não é dia de “descanso”, como para nós, visto que o dia santo do islamismo é a sexta-feira. Domingo, no caso, é início de semana lá. Assim, os organizadores do evento foram pontuais ao escolher esta data – também pelo fato de ser uma “comemoração” simbólica ao primeiro ano de (des)mandato de Mossir.
Esses fatores não servem para desmerecer, de maneira alguma, a grandiosidade das manifestações egípcias, mas sim a de reforçar todo o poder da população.
Poder esse, que fica ainda mais evidente pelo apoio do respeitadíssimo exército egípcio. E essa é uma relação complexa. O Exército está com o povo, mas não exigiu nada. Está no discurso, todavia, só entrará em ação caso julgue necessário e, se entrar, Mossir dará tchau para o cargo, pois lá, diferente daqui, as forças armadas são, também, amadas e, pelo que me foi passado, surpreendentemente, são bastante equilibradas ideologicamente falando. Um tanto diferente daqui do Brasil.
Porém, existe um temor muito grande de que a manifestação descambe para uma imediata guerra civil e o Egito entre num estado que pode levar anos para se recuperar, o que o povo não quer, de maneira alguma, pois além do estrago natural que uma guerra causa, o atraso iria contra o imediatismo que circunda, atualmente, o país.
Alguns outros comentários que fui colhendo em diversas fontes:
Da jcrs:
Relatórios policiais neste domingo informavam a apreensão de armas de fogo, explosivos e até mesmo granadas de artilharia em vários locais do país.
Em uma entrevista publicada hoje no jornal The Guardian, Morsi, que ainda tem três anos de mandato para cumprir, disse que não tinha planos de atender ao pedido dos manifestantes de antecipação das eleições presidenciais. “Se nós mudamos alguém no cargo que (foi eleito) de acordo com legitimidade constitucional – bem, haverá pessoas ou oponentes ao novo presidente também, e, uma semana ou um mês depois, eles vão pedir-lhe que deixe o poder”, disse o presidente egípcio. “Não há espaço para qualquer discurso contra essa legitimidade constitucional.”
Do ig:
Os protestos da oposição surgiram após uma petição feita por um grupo ativista jovem, conhecido como Tamarod (termo árabe para “rebelde”). Por muitos meses, o grupo coleta assinaturas pedindo para Morsi renunciar.
No sábado, o grupo anunciou que coletou mais de 22 milhões de assinaturas – prova, segundo ele, de que um grande setor da população não quer mais Morsi no poder.
Os partidários de Morsi questionaram a autenticidade e validade das assinaturas, mas não produziram nenhuma evidência de fraude.
Agravando a crise, oito legisladores do parlamento interino do país anunciaram sua renúncia no sábado em protesto à polícia de Morsi.
Aqui no literatortura acompanharemos também os desdobramentos das manifestações no Egito, quase sempre com informações exclusivas dos ativistas que por lá vivem.
E prevendo a piada: #amúmiaacordou