17 de julho de 2013

A Internet: entre apocalípticos e integrados


Em um artigo de 2011, publicado pela New Yorker (The Information: How the Internet gets inside us), Adam Gopnik lembra que o primeiro livro da série Harry Potter é de 1997, um ano antes do aparecimento do Google, a ferramenta de busca na Internet mais usada em todo o mundo.
Há uma passagem no livro em que Hermione vai até a biblioteca de Hogwarts e passa horas pesquisando sobre o basilísco e sobre como fazer uma poção de amor. Para Gopnick, a ideia de que uma aprendiz de magia pudesse dispor de uma pequena tela onde, após alguns cliques, receberia milhares de informações sobre o que desejasse, incluindo artigos científicos e imagens, seria uma “vassoura de Quadribol muito avançada” para aquele momento. Agora, quando as crianças assistem à cena nos filmes, se perguntam: -“Por que ela está fazendo isso? Por que ela simplesmente não “google it”?

A passagem ilustra a rapidez de um processo de mudanças tecnológicas que alteram a sociabilidade, o acesso à informação, os debates contemporâneos e, talvez, a qualidade do conhecimento e das oportunidades de vida. O debate sobre o sentido destas transformações está ainda em seu início. Parafraseando Humberto Eco, penso que seja preciso construir uma síntese crítica que se situe em algum espaço entre “apocalípticos e integrados”; vale dizer, entre as posições daqueles para quem a verdadeira cultura e a virtude se exilaram no passado pré-digital (os apocalípticos) e aqueles para quem as próprias ideias de verdadeira cultura e virtude perderam o sentido em um mundo de progressiva autonomia e radicais possibilidades democráticas (os integrados).

A historiadora Ann Blair mostrou em seu livro “Muito para saber: lidando com a informação acadêmica antes da idade moderna” (Too Much to Know: Managing Scholarly Information Before the Modern Age) que, ao final da Idade Média, a popularização dos manuscritos e dos livros produziu a visão pessimista pela qual alguns acreditaram que tanta informação disponível dificultaria a concentração e as boas escolhas. Panfletos e poemas que passavam a circular iriam produzir um “mundo fragmentado” e sem sentido. Com tantos livros, as pessoas não teriam mais tempo para ler o que realmente deveria ser lido. Críticas do tipo, aliás, muito mais tarde, caracterizaram vários dos estudos sobre a TV. Hoje, a Internet concentra as preocupações. Nossos jovens estariam presos demais à rede, conectados a ponto de prejudicar seus cérebros etc. Os problemas reais, entretanto, talvez não sejam exatamente estes.

Estudo sobre os hábitos culturais da população, realizado pelo governo francês ao longo das últimas quatro décadas (Les Pratiques Culturelles des Français), mostrou que a visão otimista segundo a qual a Internet democratizaria o acesso à cultura pode não corresponder à realidade. Na vida real, as pessoas parecem procurar na Internet apenas os produtos de sua própria formação cultural. Assim, jovens com formação cultural precária navegariam nos limites dos seus horizontes, reforçando suas preferências ao invés de superá-las pela descoberta de novos valores. Na outra ponta, jovens de melhor preparo acadêmico e com maior contato com a cultura universal, encontrariam na Internet possibilidades de aperfeiçoamento, pesquisando, acessando sites culturais, recebendo informação qualificada, aprendendo idiomas etc. O resultado seria, ao final, o aprofundamento das desigualdades culturais.

O que parece importante reter é que a introdução de uma nova tecnologia se presta para diferentes conteúdos e resultados. Visões preconceituosas e fundamentalistas proponentes da violência encontram na Web um espaço tão importante para sua disseminação quanto o saber científico e os valores humanistas comprometidos com a paz e a tolerância. Em síntese, não há tecnologia capaz de livrar a humanidade da estupidez, mas a estupidez pode se valer da tecnologia e frequentemente o faz. Por outro lado, círculos virtuais de relacionamento são muito diversos de círculos sociais. Quando interagimos socialmente, estamos sob o escrutínio das pessoas – sabendo, portanto, que seremos julgados por elas. Ao mesmo tempo, as normas de convivência civilizada tendem a moderar nossos desejos. Já nas interações virtuais, com a possibilidade do anonimato digital, os desejos tendem à expansão e ao desregramento. O que antes existia apenas no fundo sem fundo dos indivíduos, nos espaços obscuros das almas atormentadas, agora se dissemina pelas redes e se transforma em ameaça real. Neonazismo, racismo, homofobia, pedofilia, terrorismo e outras maldições ganham corpo neste espaço, o que talvez comprove que a modernidade carrega a barbárie como sombra incansável.