21 de julho de 2013

Fatos e fotos – O que aconteceu com os ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais?

Publicado em 21 de julho de 2013 | por Clariana Touza
"Recentemente o Oráculo da Superinteressante respondeu a uma dúvida cruel de um leitor: “O que houve com o chinês que desafiou o tanque em Pequim?”.  E fiquei pensando: o que teria acontecido com todos os outros ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais? Confira abaixo nove momentos históricos marcados por rostos de cidadãos comuns:
1- O chinês que paralisou os tanques (1989), por Jeff Widene:
O momento histórico em questão apontado pelo leitor era uma China estudantil que brigava por seus direitos e pela democracia em 1989, quando um jovem (não se sabe ao certo se era estudante ou trabalhador) se posicionou em frente a uma linha de tanques que avançava pela Praça da Paz Celestial em Pequim e assim os paralisou. O chinês que conduzia o tanque se recusou a acatar a ordem de avançar sob o manifestante pois poderia causar algum dano ao jovem e assim, todos os demais tanques do comboio militar foram obrigados a parar. A cena foi fotografada por Jeff Widener e percorreu o mundo como símbolo do movimento democrático Chinês e resistência ao governo, além de ter servido como exemplo da preocupação dos soldados do Exército popular em proteger a população.
Na época o jovem não foi identificado e foi apelidado de Homem-tanque.  Hoje, sabe-se muito menos ainda sobre o homem. Muitos acreditam que um ano após o episódio histórico, o corajoso cidadão chinês foi preso e morto pelo governo, porém na mesma época o jornal britânico Sunday Expressafirmou ter identificado o sujeito como um estudante de 19 anos chamado Wang Weilin. A informação nunca foi confirmada e em 2006, o mesmo jornal publicou outra matéria dizendo que o Homem-tanque estava vivo e trabalha como arqueólogo. Em 2009 o também britânico The Times noticiou que tudo não passava de uma invenção midiática e que as autoridades jamais foram capazes de identificar o homem. Fato é que ninguém sabe o que realmente aconteceu com o jovem que paralisou um comboio militar inteiro e se sabem, o governo chinês fez questão de abafar qualquer informação.
2- A garota afegã (1984), por Steve McCurry:
A fotografia A Garota afegã, tirada por Steve McCurry, da National Geographic, em 1984, foi um escândalo para o mundo oriental, já que a jovem aparece com o rosto descoberto, o que era proibido por lei. A menina fotografada é Sharbat Gula, que na época tinha 12 anos e frequentava uma escola informal no campo de refugiados Nasir Bagh, no Paquistão. Sharbat saiu de seu país-natal fugindo dos soviéticos com sua família e perdeu seus pais enquanto fugiam de um bombardeio, tendo chegado apenas ela, a avó e os irmãos ao acampamento. Nunca antes tendo visto uma máquina fotográfica, encantada, a menina aceitou o desafio de ser fotografada e descobriu o rosto para um fotógrafo estrangeiro. A foto virou capa da National Geographic em junho de 1985.
Em janeiro de 2002, McCurry volta ao acampamento em Nasir Bagh com uma equipe a fim de saber o paradeiro da menina afegã, mas não a encontra. Após algum tempo, o fotógrafo mostra a capa da revista para um morador local que conta o que sabe sobre Sharbat:  junto com os irmãos, ela voltou ao Afeganistão. A partir de então, um documentário pela National Geographic foi produzido, e A menina afegã: uma vida revelada foi ao ar em 2003. Nessa época Sharbat estava com 29 (ou 30 anos, ela mesmo não sabe sua idade pois não possui registro) e todos os sinais da guerra, da invasão e de suas dificuldades de vida eram nítidos nos olhos marcantes e no rosto sério e cansado. Hoje, Sharbat é mãe de três meninas e continua a viver no Afeganistão. Dona-de-casa, segue a risca as regras do seu país e o escândalo de ter sido fotografada com o rosto descoberto em 1984 parece não ter impedido que seu marido se casasse com ela.
3-Napalm girl (1972), por Nic Ut:
Em 1972, um avião norte-americano bombardeou a região de Trang Bang, no Vietnã, com napalm. O Vietnã na época era dividido em Norte e Sul, sendo o Norte comunista e o Sul capitalista e controlado pelos EUA, portanto a Guerra do Vietnã se deu por diferenças ideológicas fomentadas pelas duas maiores nações e os vietnamitas ficaram no meio do fogo cruzado, como é o caso de Kim Phuc e sua família, que foram atacadas em Trang Bang. Ao ser atingida pela bomba e ver suas roupas em chamas, a menina Kim de apenas 9 anos saiu correndo e chorando. Quando teve suas vestes completamente consumida pelo napalm, o fotógrafo vietnamita Nic Ut a fotografou em seu desespero. O maior problema no entanto é que os soldados vietcongues ao tentar ajudar a menina, jogaram água e fizeram o napalm se espalhar mais depressa e queimar a pele de forma mais profunda, já que eles estavam lidando com um novo tipo de material bélico. Depois de fotografar Kim, Nic Ut a levou ao hospital, onde ela passou 14 meses e fez inúmeros enxertos de pele. O fotógrafo continuou a visitar a menina durante três anos após o ocorrido e só parou de vê-la quando ela foi evacuada da província onde vivia. Essa foto rendeu a Nic o Prêmio Pulitzer e o World Press Photo of the Year.
Kim e sua filha
Kim Phuc cursou medicina, se casou e hoje vive no Canadá com suas duas filhas e seu marido, além de ter criado a ONG Fundação Kim Phuc, que é vinculada à ONU e auxilia no tratamento médico e psicológico de crianças que foram vítimas de guerras, e se tornou embaixadora da Boa vontade, um projeto da UNESCO. Anos depois, o capitão John Plummer, responsável pelo ataque das bombas napalm na vila de Kim veio a público pedir desculpas pelo feito, confessou ter se tornado alcoólatra após ver o estrago que causou e depois virou pastor de uma Igreja Metodista nos EUA, mas ele afirma nunca ter se perdoado em seu coração e hoje dá palestras sobre paz ao redor do mundo. Bom, pelo menos Kim o perdoou.
4-Espreitando a morte (1994), por Kevin Carter:
Em 1994, o fotógrafo sudanês Kevin Carter caminhava por uma região pobre de seu país quando viu a cena mais traumatizante de toda sua vida: uma criança subnutrida e faminta se arrastava pelo chão, tentando chegar até a região onde era guardada a comida em um campo das Nações Unidas, que ficava cerca de 1 km a frente. O mais horripilante nessa foto é o abutre, que fita a criança e cheira a morte dela, como se esperando ali sua próxima refeição. Ninguém sabe quem era a criança ou que aconteceu com ela, mas muito provavelmente morreu de fome e doente. Kevin ficou tão perturbado com a cena que a fotografou e foi embora. O fotógrafo ganhou o prêmio Pulitzer de fotojornalismo naquele ano, mas cerca de três meses depois de fotografar a menina, entra em depressão profunda e se suicida. Relatos do seu diário foram encontrados e diziam: “Querido Deus, eu prometo que nunca mais desperdiçarei comida, não importa o quanto ruim pareça e o quão cheio eu esteja. Rezo para que Você proteja esse corpo, oriente-o e o leve para longe da miséria. Rezo para que sejamos mais sensíveis perante o mundo que nos rodeia e não nos deixemos ficar cegos por nossa própria natureza egoísta e interesseira.”

5- Omayra Sánchez (1985), por Frank Fournier:

Em 1985, o vulcão Nevado del Ruiz na Colômbia voltou a ativa e fez 25 mil vítimas, entre elas Omayra Sánchez, que tinha 13 anos de idade. A menina ficou presa durante três dias entre destroços da própria casa, lama, água e os corpos de seus pais e segundo relatos, tentava ser positiva e forte e conversava sobre voltar às aulas e rever seus amigos. Quando os paramédicos finalmente chegaram, disseram não poder fazer muita coisa por ela já que não dispunham de muito material de trabalho. Essa imagem virou o símbolo do descaso das autoridades colombianas com as vítimas da catástrofe e é o começo do chamado processo de globalização, já que a agonia de Omayra foi vivenciada pelas câmeras de televisão em tempo real por todo o mundo. A fotografia só foi publicada por Frank meses após o falecimento da menina.
6- Protesto silencioso (1963), por Malcom Browne:
Thich Quang Duc, um monge budista do Vietnã, ateou fogo em seu próprio corpo em um cruzamento para chamar atenção à repressão que o Budismo vinha sofrendo em seu país. O regime católico, que controlava o governo do Vietnã do Sul na época, reprimia qualquer manifestação religiosa que não fosse a católica e os monges insatisfeitos foram às ruas protestar. Thich Duc queimou até a morte sem sequer mexer um músculo ou gritar, ele se manteve imóvel até o momento em que morreu. Outros monges em solidariedade repetiram o feito. Após sua morte, ele foi cremado (sim, ainda tinha o que cremar) e seu coração permaneceu intacto ao processo, o que o fez ser considerado quase como santo. Seu órgão foi guardado no Banco de Reserva de seu país como uma espécie de relíquia. Essa imagem virou capa de CD da politizada banda Rage Against the Machine em 1922.

7- O beijo da Times Square ou V-J Day: Dia da vitória sobre o Japão (1945), por Alfred Eisenstaedt:
Após o final da II Guerra Mundial, os EUA celebravam sua vitória e um jovem marinheiro não se conteve e começou a beijar todas as moças que passavam na sua frente. Segundo o fotógrafo, o homem acabara de desembarcar em seu país natal e foi fotografado por acaso, já que Alfred Eisentaedt afirma que estava na rua por outro acontecimento. O marinheiro não foi identificado e a moça em questão era uma enfermeira que passou no momento e foi agarrada por ele. Alfred conta que o que o chamou atenção no beijo foi o contraste entre o branco e o escuro das roupas deles e que logo depois da cena, ela lhe deu um bofetão na cara. A fotografia representa a empolgação de um jovem ao ter sobrevivido à maior Guerra mundial e de sua satisfação pessoal de dever cumprido em nome da pátria, além de trazer duas imagens simbólicas de uma nação que acabara de vencer a guerra: uma enfermeira e um marinheiro. A fotografia e sua pose foram reproduzidas massivamente e viraram orgulho dos EUA, mas o fato de ela ser uma imagem tão marcante é o seu acaso e a primeira vez em que uma cena tão inusitada ocorre em um espaço público movimentado.
Shain em evento social revivendo seu beijo de 1945
 A identidade da enfermeira só ficou conhecida no final da década de 70, quando Shain escreveu ao fotógrafo se identificando como a mulher da foto. Ela trabalhava em um hospital em Nova York no período da Guerra e diz desconhecer a identidade do homem que a beijou. Após se identificar como a moça da foto de 1945, ela foi convidada a participar de eventos relacionados à guerra. A então ex-enfermeira morreu em 2010, deixando três filhos, seis netos e oito bisnetos. “Minha mãe sempre estava disposta a enfrentar novos desafios, e cuidar dos veteranos da Segunda Guerra Mundial lhe dava energia para aceitar outra chance de fazer a diferença”, afirmou seu filho Justin Decker em um comunicado feito à impressa. Mas até hoje se desconhece o beijoqueiro da Times Square.

8-A Mãe migrante (1936), por Dorothea Lange
A Grande depressão foi o caos para os EUA e mais ainda para os fazendeiros, que plantavam para tentar ganhar algum dinheiro e não tinham como alimentar seus próprios filhos. Pensando nisso, Frank Roosevelt frente ao Ministério do Reassentamento (depois, Ministério de Proteção Rural), mandou uma equipe de fotógrafos para mostrar a necessidade de uma assistência social e para documentar a vida dos fazendeiros que migraram para a Califórnia, mas acabaram encontrando ali uma vida tão miserável quanto a que viviam anteriormente em outras regiões do país.
Um dia quando voltava de seu trabalho, uma das fotógrafas chamada Dorothea Lange reparou em uma placa na estrada que indicava o acampamento dos trabalhadores migrantes. Dorothea seguiu seu instintito e foi até lá. Os trabalhadores estavam indo embora dali, já que a chuva e o fim do inverno castigaram o pouco do que sobrou da plantação de ervilhas. Porém, havia uma família estagnada e imóvel. Uma mãe sentada com cara de cansada, que tinha um bebê dormindo no colo, estava cercada por crianças descabeladas e sujas. Elas não comiam direito há dias, já que os restos dos vegetais estavam congelados, e tinham vendido os pneus de seu carro para comprar comida. A fotógrafa se aproximava da mãe, que parecia não perceber a presença de Lange ali, assim como não reparava em seus filhos ao redor, que se reencostavam nela o tempo todo.
Lange fotografou a cena, apesar de esse não ser exatamente o tipo de fotografia que o Ministério pretendia, visto que não trazia o estado do acampamento e da região, porém a imagem ganhou o mundo como símbolo da pobreza. Ao ver A mãe migrante, o governo mandou comida para lá. A mãe identificada como Florence Thompson tinha apenas 32 anos na época, mas aparentava muito mais devido ao excesso de rugas, e  morreu pobre em 1983, apesar de a fotografia ter sido divulgada em jornais e revistas incansavelmente e ter virado selo dos correios americanos.

9- Menino carregando irmão morto em Nagasaki (1945), por Joe O’Donnell
 Joe O’Donnell era um jovem fuzileiro naval americano na II Guerra Mundial e estava em território japonês quando as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram jogadas. Ele, assim como muitos, sofreu com o efeito da radiação e trouxe sequelas tanto físicas quanto psicológicas para o resto de sua vida. Em entrevista, O’Donnel relatou o episódio da foto: “Eu vi um menino andando aparentando ter aproximadamente dez anos e nas costas, ele carregava uma criança. Naqueles dias, no Japão, muitas vezes era possível ver as crianças brincando com seus irmãos ou irmãs mais novas, mas esse menino era claramente diferente. Eu pensei que ele estava lá por uma boa razão. Ele não tinha sapatos e seu rosto estava rígido.
A cabeça do bebê cambaleou de lado a lado, como se ele estivesse dormindo. O menino ficou lá por cinco ou dez minutos.  Os homens com máscaras brancas se aproximaram dele e silenciosamente começaram a desatar a corda que segurava a criança. Naquele momento, eu vi que a criança estava morta. O homem pegou a criança em seus braços, e colocou ela no fogo. O menino continuou a ficar imóvel, olhando para o fogo. Ele cerrava seus lábios com tanta força que eles estavam cheios de sangue. Então, o menino virou-se e foi embora em silêncio. ” Ninguém sabe o que houve com o menino que entregou o irmão morto aos paramédicos e o irmãozinho dele foi cremado junto com outros corpos sem ao menos ser identificado, já que naqueles tempos de guerra era difícil manter um registro atualizado das pessoas. Crê-se que o menino japonês mais novo tenha morrido com os efeitos da radiação da bomba atômica, mas a verdade é que ninguém sabe dizer absolutamente nada sobre as duas crianças da foto, só o que aconteceu naqueles 10 minutos.
Quando resolvi matar a curiosidade sobre o que havia acontecido com os ilustres desconhecidos que marcaram o mundo ao retratar momentos históricos, não sabia que enfrentaria o problema da falta de informações. Para montar essa matéria, tive que selecionar imagens que contassem uma história (por isso eliminei tantas outras) e recorrer a inúmeras fontes e mesmo assim, não foi o suficiente. Parece não haver um interesse em se manter dados ou um descaso geral, mesmo quando se tratando de pessoas que rodaram o mundo através das fotografias.
Enquanto escrevia a matéria, me deparei com um dilema pessoal: eu me sentia mal por estar parecendo sensacionalista. Eu me sentia amadora contando verdades tão cruéis da humanidade e eu me esforcei para revelar tragédias do mundo. E para que? Com a matéria finalizada, redescobri o porquê de escrever sobre isso: eu não queria mostrar a crueldade humana, eu queria falar sobre a vida, ainda que em alguns casos a morte seja inegável. Eu procurava retratos de um mundo que encara problemas, tragédias, guerras e situações inusitadas, eu desejava mostrar como lidamos com isso.  Existia uma ânsia em relatar como viramos história ao estarmos no lugar errado e na hora errada. A vida acontece e temos de lidar com fatos. O descaso, o egocentrismo, a ganância e o medo existem e temos que lidar com eles todos os dias. A matéria se propõe a ser um retrato do mundo, ainda que se mostre cruel. Cada olhar, cada pose e gesto contam uma verdade e minha intenção era buscar estes relatos de vida e momentos históricos pelas lentes de uma máquina fotográfica."

Revisado por Carlos Cavalcanti
  Clariana Touza é uma entusiasta de qualquer tipo de expressão artística. Estudante de Artes Cênicas, encontrou sua essência criativa na montagem de cenários e figurinos. Pessimista, metódica, perfeccionista e chata assumida, tenta ler o maior número de livros e revistas que seu sono permite. Leitora voraz de Stephen King, fã do gênero terror/suspense nas telonas e louca por um drama.