3 de julho de 2013

Transição


"Sou tempo, passatempo, ora aquele tempo ruim,
mero escravo, disfunção, sombra nítida de mim.
Sou mudança, permanência, sou peão jogado fora,
nesta carne, nesta pele, no amor que não aflora.


Gole seco, gelo morno, vinho rubro sem sabor,
luz opaca, água suja, peça d’ouro sem valor.
Corte fundo, frenesi, apatia e mal querer,
sou estupro, rebeldia, nesta alma a perecer.

Sou sangria, miserável, abandono e letargia,
ser doente, folha seca, e infindável agonia.
Corpo hostil, uva azeda, a mentira e a verdade,
bicho vil, arte torpe, sou pecado e piedade.

Vento morno, chuva fria, aglomerado solitário,
terra morta, fogo atroz, só de espírito precário.
Faca cega, eficácia, paradoxo e certeza,
guia surdo, mal caminho, a feiura na beleza.

Sou aurora, escuridão, fragmento verdejante,
nuvem negra, alvorecer, o pequeno e o gigante.
Veredito, ambigüidade, sou diabo em paraíso,
Sou partida, sou chegada, o momento sem aviso.

Desventura, esperança, o demônio em santidade,
Sou carinho, violência, e o anjo na maldade.
Sou nirvana, sou demência, cintilante camafeu,
Sou virtude, sou defeito, sou apenas este “eu”."