15 de agosto de 2013

Professor reúne apelidos racistas e cria projeto contra o preconceito

 por Monique Almeida

Ainda bem que para cada coisa ruim, existe uma boa para compensar. Assim, trago para vocês, depois da chocante matéria sobre a “reforma educacional” já abordada noLiteratortura (aqui!), o comovente caso do professor Luiz Henrique Rosa, que dá aulas na Escola Municipal Herbert Moses, localizada na zona norte do Rio de Janeiro. Após perceber a quantidade de apelidos preconceituosos que os alunos utilizavam, ele realizou uma atividade e, a partir dela, criou um grande projeto chamado “Qual é a graça?”.
A atividade consistia em escrever numa folha de papel o que os alunos mais escutavam na escola. De aproximadamente 400 palavras, 360 continham teor preconceituoso, como “macaco” ou “galinha de macumba”.
O professor, então, aproveitou o ensejo para iniciar o projeto. A ideia era combinar a ação contra o preconceito ao estudo da nossa história, visto que possuímos forte influência negra, basta analisar livros como “1808” ou “1822” para constatar o quanto a cultura foi modificada por causa da escravidão ou dos outros traços, como religião e música.
Cada aluno contribuía com R$6,00 para que fossem comprados pedaços de mármore que foram pendurados no quintal da escola. Em cada lápide havia o nome de um escravo e, para os que o nome não era conhecido, as crianças deixavam como “Deus sabe o nome”; uma analogia às homenagens feitas para os soldados que lutaram na Segunda Guerra Mundial.
Além disso, ele aproveitou para trabalhar a interdisciplinaridade da ação e misturou a escravidão com estudos básicos de botânica. De acordo com o número de dias da viagem, conforme os trajetos da “era da escravidão”, ele trabalhou os ciclos de alimentos como couve, alface, pepinos e mostardas. E o mais interessante é que, com a ansiedade para colher as plantações, os alunos perguntavam: “Ele ainda tá amarrado, professor?”.
 Interessante também porque atingiu a área de gramática, na qual a professora, por exemplo, poderia questionar os alunos se berinjela era escrito com “g” ou “j” e a fixação certamente seria garantida. Mas é óbvio que a aprendizagem seria mais produtiva quando os alunos têm contato com o meio, com essa pesquisa de campo simples, porém de extrema eficiência.
 Luiz afirma manter o projeto por amor, e os resultados são visíveis na comunidade. Muitos elogiam como os apelidos foram diminuídos após a ação do professor. A pior parte é que, durante todo esse tempo – o início foi no final de 2009 –, a Secretaria de Educação nunca demonstrou apoio pela causa.
 Medida que não é de se estranhar, em que a solução encontrada para um sistema educacional inteiramente precário é a extinção do aprendizado de outras matérias que não sejam Português e Matemática durante o Ensino Fundamental. No fim das contas, podemos perceber com esse projeto o quanto não é importante que crianças tenham conhecimento da história, botânica ou geografia do seu país, pois isso em nada altera seu comportamento e sua formação como cidadãos melhores.
A iniciativa é incrível e com certeza marcará a vida desses jovens estudantes, resta apenas que o projeto se expanda. Pensem no que poderia ser alcançado se cada escola, pública ou particular, adotasse a mesma medida?
Não há palavras para descrever o quão _______ é esse projeto. Luiz Henrique Rosa realizou algo notável e prefiro encerrar o parágrafo com uma música conhecida, mas que se encaixa perfeitamente ao significado dessa atitude:
“You may say 
I’m a dreamer, but I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the world will be as one”

Luiz Henrique Rosa, professor de Biologia

Revisado por Amanda Prates.