9 de outubro de 2013

A Era dos Samurais


Eles existem desde o século VIII, mas foi entre o Período Kamakura, iniciado em 1192, até a Restauração Meiji, em 1867, que os samurais tiveram sua época áurea no Japão. A Restauração Meiji é o marco do início do fim da estrutura feudal japonesa, o início da industrialização do país e o fim dos samurais enquanto servidores do imperador. Mas como os samurais chegaram a ter este status? É isso que vamos tentar explicar agora.

Devido seu isolamento do resto do mundo – em especial o fim do contato direto com a China, principalmente após a invasão de Gengis Khan àquele país – a sociedade japonesa teve um desenvolvimento bem peculiar, com características que nós dificilmente encontramos em outros povos.

Querem um exemplo recente? O grande terremoto que causou um tsunami em março de 2011. Mesmo com lugares completamente destruídos e outros carecendo de abastecimento básico de água e alimentos, TODOS os jornalistas fizeram questão de destacar a forma ordeira, disciplinada e educada com que os japoneses lidaram com este grave problema, sem causarem tumultos, brigas e confusões. É inegavelmente um aspecto cultural que não é muito comum em outras sociedades do mundo.

Honra, perfeição, justiça e lealdade. Parte desta disciplina e deste respeito comuns na cultura japonesa são heranças dos samurais. Para quem não sabe – e eu também não sabia antes de pesquisar – , em japonês o termo samurai quer dizer “aquele que serve”. Os garotos eram iniciados no Bushido, o “caminho do guerreiro”, e assim aprendiam o Kobuto, a arte marcial dos samurais. Aqui cabe uma informação: todo samurai era um bushi, “guerreiro”, mas nem todo bushi era um samurai. Entenderam?


Aqueles que tinham melhores habilidades de luta e de manuseio da katana e da wakizashi – as duas espadas samurais – acabavam contratados por um senhor, normalmente dono ou responsável direto das terras próximas, nomeado pelo imperador. Viravam cobradores de impostos e auxiliavam na administração das terras.

Após a guerra entre dois grandes grupos, os Guenjis e os Heishis, já no século XII, é que os samurais passam a ocupar funções militares no Japão. Os Guenjis venceram a guerra, valendo-se do fato de que a aristocracia Heishi afastou-se das práticas militares e buscado garantir o controle de suas terras de forma diplomática e burocrática.

Minamoto-no Yoritomo, “chefe” dos Guenjis, temia que seus subordinados caíssem nos mesmos erros dos Heishis, e preferiu transferir sua sede governamental de Kyoto para a região de Kamakura. Na ocasião o imperador Takahira ainda era muito novo – estima-se que em 1192 ele tinha apenas 12 anos – nomeou Yoritomo como “Shogun”, ou general dos generais, ou “generalíssimo”. Algumas fontes dizem que o próprio Yoritomo proclamou-se generalíssimo.

Independente de quem nomeou quem, a instituição imperial japonesa perdeu um pouco da força, mas acabou ganhando um séquito de leais defensores.


A consolidação do Shogunato


Yoritomo organizou a estrutura japonesa de forma que havia uma certa dependência de ambas as partes que, de certa forma, mandavam no povo. A casa imperial passou a demonstrar força absoluta com os samurais ao seu lado, e os samurais, por sua vez, controlavam a estrutura feudal com a bênção divina do imperador.

Mas um evento em especial vai ajudar muito na união do povo japonês e na consolidação da força dos samurais: as tentativas de invasões mongóis ao Japão.

Kublai Khan, neto de Gengis Khan, após invadir e conquistar a Coréia tentou também invadir o Japão por duas vezes: em 1274 e 1281.

A primeira invasão, desejada pelo Khan desde 1268, só foi possível em 74 pois os mongóis não tinham uma frota marítima que pudesse transportar muitos soldados para a invasão. Centenas de barcos foram construídos para este fim – estima-se um número entre 700 e 800 embarcações – e cerca de 44 mil soldados, entre mongóis, chineses, tártaros e coreanos zarparam do sul da Coréia em direção ao Japão. Após os mongóis vencerem os japoneses em Tsushima, eles aportaram na baía de Hakata. Ali também venceram os exércitos japoneses, liderados pelos samurais, que tiveram que bater em retirada para fortificações que ficavam mais no interior da região, na tentativa de reorganizar a defesa.


O Kami kaze: Pilotos suicidas defendendo o Japão no século XIII? Nada disso…

Os mongóis venceram a batalha em Hakata e à noite voltaram para seus barcos. Ali, na segurança do porto e na alegria da vitória eles provavelmente festejaram e foram dormir. De madrugada um “vento divino” – um verdadeiro tufão – levou os barcos para bem longe do litoral, afundou muitos outros e acabou por dispersar TODA a frota mongol.

Este é o real significado da expressão kami kaze, ou kamikaze: “vento divino”, ou “vento dos deuses”.

Khan não desanimou. Após subjugar a dinastia Song em 1279 e enviar emissários algumas vezes para o Japão exigindo a submissão do imperador – fato este que nunca foi aceito nem pelo imperador sequer pelos samurais – uma nova grande invasão foi planejada e executada em 1281.

Desta vez, estima-se que 4400 barcos levaram cerca de 140 mil guerreiros para invadir o Japão. Duas frentes foram montadas: uma saiu da Coréia e outra do rio Yangtze, na China. Mais uma vez os samurais defenderam bravamente a região de Hakata, só que desta vez com fortificações e barcos bem mais robustos do que os que existiam em 74.

Os soldados de Khan que saíram da China sofreram um pequeno atraso, é verdade, mas um novo tufão destruiu muitos barcos mongóis, desfalcando consideravelmente a frota de Khan.

Esta providência dos ventos – e óbvio, a coincidência de acontecerem justamente durante uma grande invasão e ajudarem na destruição da frota inimiga – levou os japoneses a acreditar que seu país era protegido pelas forças divinas. Como já foi citado, os samurais dominaram o Japão por séculos, até a Restauração Meiji. Influenciaram todo um povo e uma cultura, e seus rastros estão presentes no Japão até hoje.




Fonte: HistoriaZine #Alissont