11 de novembro de 2013

Religião: a fé como produto da inércia cultural

Como a fé se internaliza no pensamento das pessoas ? A questão do motivo da humanidade ter desenvolvido a fé em algo inescrutável e fora de explicação já foi objeto de textos anteriores. Em resumo basicamente, tais motivos seriam: 01 – o medo da morte, 02 – o medo do desconhecido, 03 – a necessidade de achar “explicações” para tudo (uma entidade criadora de tudo aparentemente contenta muitas mentes como sendo uma explicação razoável, o que não deixa de ser curioso, pois tal afirmação a rigor nada explica), e 04 – a necessidade do ser humano querer que sua “essência” seja eterna.
Mas isso é uma explicação “macro”, digamos assim. A pergunta agora é como que individualmente as pessoas adquirem fé ? Bem, uma resposta que logo nos salta aos olhos é que isso se passaria pela influência cultural e pela educação que a pessoa recebe desde o nascimento, de seus familiares e demais pessoas próximas. E como se dá esse processo ? Veremos.
Uma criança em terna idade não possui a capacidade de questionamentos amplos sobre a existência do universo, origem de tudo ao seu redor, e demais questões filosóficas sobre a realidade ao seu redor. Dessa forma, antes mesmo que ela possua qualquer capacidade para tais questionamentos, ela já é influenciada fortemente por pessoas que embutem em sua mente a idéia de que a fé que elas professam é a verdade por si só. Posso estar enganado, mas o que a minha observação mostra é que não é costume de famílias religiosas ensinar aos filhos que a fé deles é apenas a verdade “em que eles acreditam”, e que existem outras versões para os mesmos fatos. Não, de forma alguma. O que os pais costumam fazer é simplesmente explicar o mundo de acordo com a sua fé como sendo a única explicação passível de aceitação. Quando citam outras vertentes da fé já é logo para criticar e deixar bem claro que tudo aquilo é mentira e enganação.
E a criança diante de tudo isso ? Ora, ela em primeiro lugar verifica que a enorme maioria das pessoas também possuem fé em algo sobrenatural. Pessoas que ela identifica como sendo praticantes de outra fé já é logo vista com desconfiança, devido ao discurso dos pais. Esse preconceito costuma ser reforçado na criança, e dessa forma ela vai tendendo a enraizar a visão de que a sua fé é a única verdadeira.
A criança vai crescendo, e vai percebendo que adultos em geral possuem fé. E essa fé, mesmo que seja de uma natureza senão exata, mas é sim parecida com a sua ( afinal, católicos, evangélicos e espíritas, a despeito de diferenças teológicas, acreditam na mesma natureza de deus, ou seja, basicamente que ele é um só, é onipotente, é onisciente, é onipresente, é consciente, é justo, é amoroso, é pessoal, é interventor, ouve as preces, etc).

Essa maioria de adultos com fé vai servindo de reforço para a criança. Afinal, adultos em geral passam a ideia de verdade para as crianças. Se seus pais acreditam em tal coisa, se muitos adultos acreditam em algo igual ou parecido, se afinal existem até inúmeras construções feitas com exclusividade para quem acredita naquilo se reunir semanalmente, ora, então isso é sério e só pode ser verdade e pronto.
E assim a criança vai vivendo. E tudo em sua vida passa a ser um sinal de que sua fé é real. Tudo, tudo mesmo. Mesmo as totais contradições. Vejamos:
Se a criança passa de ano, é por que deus ajudou e recompensou seu esforço. Mas se ela repete de ano, então também é a vontade de deus, afinal ele é justo.
Se a criança se cura de um sarampo ou catapora, é por que deus interviu e a curou (o fato do mesmo deus ter feito ela ficar doente nunca é citado obviamente).
Se começa a chover apenas depois da criança chegar em casa, é por que deus estava esperando que ela chegasse pra deixar chover. Mas se a criança então pega chuva na rua, deus protegeu ela mesmo assim.
E por ai vai. Os pais costumam fazer isso. Tudo que acontece passa a ser um sinal de deus. Os fatos mais corriqueiros e cotidianos passam todos a serem vistos como claros e evidentes sinais divinos.
Quando chega a idade adulta, a pessoa em geral, com as atribulações da vida, ou seja, o trabalho, as pressões e cobranças do patrão, as contas pra pagar, etc…  impedem que ela pare e pense em tudo aquilo que foi ensinado em termos de fé. Afinal, para que pensar nisso se tudo na vida corrobora essa visão não é mesmo ? Os sinais continuam presentes não é mesmo ?
Afinal, vejam só. Se chegou a tempo no trabalho mesmo devido ao trânsito é “graças a deus”. Se conseguiu entregar o relatório a tempo é “graças a deus”. Se o ônibus veio finalmente vazio é “graças a deus” (as várias vezes em que ele vem lotado não contam).
E mesmo as decepções também se encaixam na fé. Afinal, se os pais morrem é por que “deus assim quis”. Se perde o emprego é “por que deus está preparando algo melhor”. E assim a vida vai seguindo. Sem tempo para contestação. As contas estão de luz, água e telefone estão ai e não há tempo a perder questionando a “verdade” do que lhe foi ensinado. Isso nem passa mais pela cabeça da pessoa.
E assim, dessa forma, as pessoas vão tendo a sua fé, por pura e unicamente inércia cultural. Nada mais do que apenas a inércia cultural e o condicionamento social. É o que chamo de fé no piloto automático.
E o mais interessante é como as pessoas religiosas tendem a querer demonstrar o quanto suas vidas são diferentes (para melhor), em relação a vida das pessoas que não professam da mesma fé, ou principalmente, das que não possuem fé. Tais pessoas tentam passar a impressão que suas vidas são constantemente abençoadas e que tudo sempre dá certo para elas.
O problema é que esse tipo de pessoa fica tão cega pela fé que não percebe que, por mais “abençoada” que seja, ela possui a mesma vida que os não “abençoados”. Ora, vejamos:
Essas pessoas “abençoadas” também acordam cedo pra trabalhar. Também enfrentam condução lotada na ida e na volta pro trabalho. Também adoecem. Também sentem dor. Também são demitidas. O pneu do carro delas também fura. Os seus parentes também morrem, e muitas vezes de forma dolorosa e sofrida.
Enfim, vivem a vida, conforme todo mundo. Absolutamente nada indica que a qualidade de vida e a rotina delas seja diferente para melhor do que da grande maioria da população em geral. Afinal se fosse assim católicos por exemplo não sofreriam nenhuma decepção na vida. Ou os evangélicos. Ou os espíritas.
Os religiosos dizem que “a verdade liberta”. O problema é que a religião em geral aprisiona e não permite que as pessoas percebam que a religião, que elas tanto prezam e defendem, não passa de uma muleta psicológica. Um mero efeito placebo para tudo em suas vidas.
Raras são as pessoas que mesmo vivendo em um ambiente religioso, “despertam” e conseguem questionar a realidade a sua volta. Raros são os que questionam a versão que desde criança receberam para explicar o mundo. Poucos conseguem, digamos assim, sair da “matrix” em que vivem.
Mas os que conseguem não voltam nunca mais ao estágio em que estiveram. Uma mente libertada nunca mais se permitirá voltar a ser aprisionada novamente.
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