6 de novembro de 2013

Sexualidade precoce | Por que meninas têm entrado cada vez mais cedo no universo da sexualidade?


Por Ana Paula Chiesse, do site fashionatto.literatortura.com
Por diversas influências, que vêm desde a criação familiar até a pressão da mídia e do ambiente escolar, as meninas têm entrado cada vez mais cedo no universo da sexualidade, principalmente na faixa dos 6 aos 9 anos.
Um estudo realizado na Universidade Knox, situada em Galesburg, Illinois, nos Estado Unidos, abordou a problemática da sexualidade infantil através de uma vertente sociológica. O estudo deu a entender que existe uma pressão social para que as garotas sejam sensuais, e assim se tornarem aceitas, sem que elas nem saibam o significado real disso.
Nesse estudo, que aconteceu com 60 meninas – entre 6 e 9 anos de idade – cada garota foi submetida a um questionário psicológico e social. Após isso, cada menina é apresentada a duas bonecas, uma vestida com roupas discretas, cobrindo a maior parte do corpo, e a outra vestida em trajes considerados sensuais – e tinha que escolher entre elas em quatro quesitos: com qual das duas a entrevistada se julgava parecer mais, qual ela gostaria de ser, qual das duas seria a mais popular na sua escola, e, por fim, com qual das duas bonecas ela gostaria de brincar.
Em todos esses requisitos a boneca “sensual” derrotou a “recatada”: 68% gostariam de ser como a boneca sensual e 72% delas afirmaram que esta seria a menina mais popular entre o seu grupo de amigas – o que preocupou os psicólogos. Parece que não há um desejo nessas meninas em atrair os meninos. A sexualização precoce ocorre por causa do senso comum de que a aparência sexy traz vantagens na sociabilidade.
Os psicólogos indicam os pais de crianças do sexo feminino coloquem suas filhas para praticarem atividades físicas, visto que, durante os estudos, crianças que realizavam atividades como dança ou ginástica foram as que mais rejeitaram a boneca sensualizada. Os psicólogos defendem que o esporte faz as crianças farem mais valor ao potencial do corpo como um instrumento para desenvolver arte, habilidade e saúde, levando a sensualidade para segundo plano. Os pesquisadores ainda comentam que o fato de ser necessário usar de artifícios para afastar a sexualidade precoce é preocupante, visto que isso demonstra que esse esteriótipo já bombardeia as meninas em seu ambiente familiar.
Ainda se fala da influência da mídia nesse ponto. Filmes, novelas, revistas e propagandas não incentivam explicitamente a sexualidade nas crianças (na maioria das vezes… vale relembrar esse absurdo: “Erotização infantil | Campanha exibe crianças adultizadas e gera revolta na redes sociais“. mas esbanjam as supostas vantagens que uma mulher pode obter através de sua sensualidade, contribuindo da mesma forma para o problema.
Os idealizadores do estudo não defendem que se deve cortar o acesso das meninas aos meios de comunicação, por isso acarretaria uma alienação social. As meninas devem sim ter acesso a tais meios, mas acompanhdas dos pais, tendo instrução por parte deles.
Para se ter noção do quanto é importante concientizar meninas cada vez mais cedo, tem-se os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS): uma em cada cinco meninas engravida até os 18 anos no mundo. Anualmente, 16 milhões de meninas que têm entre 15 e 19 anos, se tornam mães. Cerca de 3 milhões de adolescentes praticam abortos inseguros todos os anos no mundo.
Teorias do desenvolvimento sexual por ser divididas em duas principais correntes. A primeira dá ênfase à biologia inata, que pode ser inibida ou incitada durante a infância. A segunda é a que traz a sexualidade como construção social, que defende que as crianças são influenciadas pela sociedade em que vivem. Trazendo a discussão para o âmbito nacional, tem-se a opinião do psiquiatra e sexólogo Jairo Bouer, formado em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP, que defende a segunda corrente. Ele pensa que a cultura brasileira é um dos principais fatores que influenciam o início da vida sexual precoce.
“É difícil evitar o início da vida sexual precoce. Mas os adolescentes que conversam mais em casa e na escola e que têm informação, tendem a começar mais tarde do que aqueles que estão desamparados, que não têm família que os apoiam, que não estão na escola e que têm uma condição socioeconômica mais precária” afirma o psiquiatra.
Jairo Bouer: “cultura influencia meninos ao sexo mais cedo”
A pesquisa PeNSE 2012 pode até tranquilizar pais de meninas, pois aqui no Brasil a iniciação sexual dos adolescentes do sexo masculino é mais precoce do que a do gênero feminino. Cerca de 40% dos meninos entre 13 e 15 anos já tiveram relação sexual, enquanto entre as meninas da mesma idade a taxa é de 18,3%.
“Metade dos meninos e um terço das meninas já teve uma relação sexual completa aos 15 anos. As meninas começam a desenvolver o físico mais cedo, mas a cultura brasileira e o machismo influenciam o início sexual mais precoce entre os meninos”, defende Bouer. Ele ainda diz: “Os pais de adolescentes também devem trabalhar o tema sexualidade em casa. A família que conversa e a escola que trabalha essa questão dá uma chance de o jovem pensar mais antes de começar a vida sexual, principalmente sobre as consequências”.