13 de novembro de 2013

Um momento histórico: corpo de JANGO passa hoje por Santa Maria/RS

Restos mortais do ex-presidente serão retirados de São Borja e depois passam por análise em Brasília
Peritos fizeram medições ontem no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja, definiram as estratégias para hoje. (Foto: Marcelo Oliveira/CNV/Divulgação)
Peritos fizeram medições ontem no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja, definiram as estratégias para hoje. (Foto: Marcelo Oliveira/CNV/Divulgação)
Depois de ser retirado na manhã de hoje da sepultura, no Cemitério Jardim da Paz, em São Borja, o corpo do ex-presidente João Goulart, o Jango, será transportado para Santa Maria, onde passará a noite na Base Aérea. Amanhã, os restos mortais serão levados em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB), para Brasília (DF). A intenção é verificar se Jango sofreu morte natural, como constam nos registros oficiais, ou se foi envenenado pela ditadura militar no desenrolar da Operação Condor. Presidente do Brasil entre 1961 e 1964, Jango foi deposto pelo golpe militar.

O transporte do corpo de Jango de São Borja até Santa Maria será feito por um helicóptero. Durante a estada no Coração do Rio Grande, os restos mortais do ex-presidente não poderão ser acessados por ninguém, e haverá um forte esquema de segurança.


O governo do Estado, via Casa Militar, organizou o esquema de segurança para que familiares, autoridades e cidadãos acompanhem o procedimento em São Borja. Apenas os peritos terão acesso ao jazigo no Cemitério. O governador Tarso Genro estará na cidade da Fronteira Oeste para acompanhar a exumação.


Conforme a ministra da Secretaria de Direitos Humanos (SDH), Maria do Rosário, a exumação é um pedido da família a ela, ao Ministério Público Federal e à Comissão da Verdade. “A nossa atuação é conjunta com os peritos do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal e da Argentina, Uruguai, Cuba (com um perito que trabalhou na exumação do revolucionário Ernesto Che Guevara) e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Durante dois anos, realizamos uma pesquisa sobre os tipos de produtos que as ditaduras da Operação Condor realizavam para o envenenamento de pessoas, e esta pesquisa de caráter histórico serve justamente para verificar o que os peritos estarão procurando”, disse Mária do Rosário. O resultado da investigação será apresentado ao governo brasileiro e à família e posteriormente noticiado publicamente.


“Trata-se de um chefe de Estado, estamos nos preocupando com a preservação deste momento, tanto pelo resgate da memória de Jango, como pela família que irá acompanhar. Teremos um aparato de segurança diferenciado em toda a área do cemitério, mas isso não impede que as pessoas acompanhem o ato”, ressaltou o secretário-chefe da Casa Militar e responsável pela operação, coronel Oscar Luís Moiano.


Depois de sair de Santa Maria, haverá uma recepção ao corpo de Jango na capital federal, com uma mobilização político-partidária para marcar a chegada dos restos mortais. Jango será recebido com honras de Estado.


Da Base Aérea de Brasília, os despojos serão transportados para a sede da Polícia Federal, onde serão feitos os exames por peritos brasileiros, uruguaios, argentinos e cubanos. O governo federal se comprometeu com a devolução dos restos mortais de João Goulart ao seu jazigo na cidade, assim que o Instituto Nacional de Criminalística (INC), ligado à PF, concluir a coleta das amostras para os exames antropológico, toxicológico e de DNA. A meta é que o ex-presidente seja colocado de volta em sua sepultura no dia 6 de dezembro, quando se completarão 37 anos de seu falecimento.


Na segunda-feira, os peritos e a equipe de apoio que trabalharão na exumação do corpo do ex-presidente João Goulart já passaram por Santa Maria, depois de chegaram de avião, vindos de Brasília. Ontem, eles foram de ônibus para São Borja.


O grupo é formado por especialistas do Departamento da Polícia Federal (DPF), que coordena os procedimentos técnicos, além dos peritos da Argentina e de Cuba e observadores do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Também integram a comitiva servidores da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e João Marcelo Goulart, neto do ex-presidente.


Os ministros Maria do Rosário (Direitos Humanos) e José Eduardo Cardozo (Justiça) se juntaram à comitiva ontem, quando já estavam em São Borja para uma audiência pública. A família do ex-presidente também chegou a São Borja ontem.


Também ontem, a equipe de peritos que vai trabalhar na exumação esteve no Cemitério Jardim da Paz, de São Borja. Os técnicos fizeram medições, repassaram a lista dos equipamentos necessários e definiram as estratégias do procedimento.


O coordenador da equipe de Perícia, Amaury de Souza Júnior, da Polícia Federal, reforçou que se trata de um trabalho de fôlego, que teve início há seis meses, com reuniões e visitas periódicas ao cemitério: “Esse é um trabalho que não se inicia hoje, e nem termina amanhã. Porque vamos trabalhar ainda em laboratório, e só depois chegar a um resultado”.
Jango com alunas do Colégio Olavo Bilac, em Santa Maria, nos anos 50. (Foto: Arquivo/A Razão)
Jango com alunas do Colégio Olavo Bilac, em Santa Maria, nos anos 50. (Foto: Arquivo/A Razão)
Procurador de Santa Maria está à frente do processo
Uma das pessoas que estarão atentas a toda a movimentação para a exumação do corpo de Jango é o procurador Ivan Claudio Marx, que atua no Ministério Público Federal (MPF) de Santa Maria. Ele coordena um grupo de trabalho denominado Justiça de Transição, com a finalidade de buscar a responsabilização penal dos crimes cometidos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.
Esse grupo presta auxílio a todo procurador federal que tiver um caso de crime cometido por agentes de Estado durante a ditadura militar. Atualmente, no Brasil, há seis ações penais a respeito em andamento. Uma, inclusive, é contra o coronel santa-mariense Carlos Alberto Brilhante Ustra , comandante do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna do 2º Exército em São Paulo (DOI-Codi/SP), entre 1970 e 1974. Marx também integra o grupo Direito à Memória e à Verdade, do MPF, criado para acompanhar as buscas pelos restos mortais dos desaparecidos da guerrilha do Araguaia.

FONTE: A Razão