13 de dezembro de 2013

Crônica: Advogar é resistir

Adede y Castro
Lá pelos idos de 1980/1981 advoguei dois anos, com muitas dificuldades financeiras, sendo permanentemente tentado a fazer certas coisas que a consciência não aprovava, mas resisti, apesar das necessidades.
Conto para meus alunos, a maior parte não acredita, é claro, que uma oportunidade chegou ao escritório uma senhora muito rica que vivia com um homem e que fez a bobagem de dar a ele uma procuração com poderes de administração e venda de bens. Enquanto o amor existia, tudo bem, mas quando o casal separou, o homem se atracou a oferecer os bens da ex-companheira.
Ela queria que eu ingressasse com uma ação para revogar a procuração. Disse-lhe, de forma honesta, que bastava voltar ao cartório onde outorgara a procuração e revoga-la! Como a solução era simples demais, ela procurou outro advogado mais experiente e este cobrou uma pequena fortuna “para entrar com uma ação de revogação” e fez exatamente o que eu recomendara: foi ao cartório e mediante o pagamento de uma taxa insignificante fez um termo de revogação.
Claro que o colega não disse isto à cliente. Ao contrário, disse-lhe que o Adede era muito inexperiente. Ele saiu por cima e eu de bobo. Este mesmo colega aproveitava toda festa de advogados para rir de mim: “Adede, as pessoas querem ser logradas!”.
Doutra feita, uma pessoa me procurou para contar que testemunhara um homicídio e alguém disse que ela seria denunciada como coautor. Liguei para a Promotoria e fui informado que isto era uma bobagem, informei ao cidadão e ele não acreditou, indo procurar o colega esperto já referido, que foi ao Foro, recebeu a mesma informação e disse-lhe:
- O Juiz estava com a caneta na mão para decretar a tua preventiva. Eu cheguei e garanti a ele, que é meu amigo, vivemos tomando uísque juntos, que tu eras inocente. Ele me disse que confiava na minha palavra e rasgou o decreto preventivo. Foi por pouco, meu amigo!
Cobrou do coitado uma chácara com 15 hectares e alguns boizinhos. Deixou-o na miséria, mas quem se importa se a pessoa quer ser enganada?
Não sou e nunca fui santo, mas há limites éticos que não podem ser rompidos, por maiores que sejam as tentações.
Resista, o tempo vai mostrar que vale a pena.