3 de dezembro de 2013

Mundo: uma imensa lixeira em breve?

Por Afonso Capelas Jr. - 29/11/2013

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Em tempos de final de ano – e de Black Friday –, uma notícia para ler e pensar antes de sair comprando desembestadamente: a conceituada revista Nature acaba de publicar estudo apontando que até 2100 a humanidade chegará ao pico da produção de lixo, caso continuemos nessa toada de consumo.
Para chegar a essa conclusão os autores do artigo, todos pesquisadores e especialistas no assunto, fizeram muitas contas. Concluíram que nossa progressão aritmética de geração de rejeitos está assim: em 1900 todo o planeta produzia menos de 300 mil toneladas de lixo por dia. Em geral eram artigos domésticos quebrados, restos de comida e embalagens. Tudo descartado pelos 220 milhões de pessoas que, à época, moravam em regiões urbanizadas, 13% da população mundial.
Cem anos depois esses números saltaram para três milhões de toneladas de resíduos sólidos diários, gerados por 2,9 bilhões de moradores das cidades, ou 49% da população mundial. Em 2025, ou seja, daqui a apenas doze anos, deixaremos nas calçadas todos os dias para o caminhão de coleta levar o dobro: seis milhões de toneladas. Pelos cálculos dos pesquisadores, uma quantidade suficiente para abarrotar caminhões que, se colocados em fila, chegariam a 5 000 quilômetros. Por dia!
As contas seguem e revelam que esses números aumentarão muito mais até 2050, quando seremos 9 bilhões de pessoas. A quantidade colossal de rejeitos poderá diminuir lentamente caso a ciência e as novas tecnologias consigam produzir artigos cotidianos menores, mais leves, mais eficientes. Caso contrário, atingiremos o ápice de produção de lixo em 2100, com números serão em torno de 11 milhões de toneladas geradas diariamente.
O artigo diz ainda que os maiores produtores de lixo são os 34 países que compõem a Organização pata a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os cidadãos desses países produzem o próprio peso em lixo por mês. A OCDE representa as nações com os maiores PIBs e índices de desenvolvimento urbano do planeta, onde ainda não estão incluídos os países em desenvolvimento como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Todavia, os autores alertam que esses países em desenvolvimento também produzirão mais lixo. Quanto mais crescem economicamente, mais consomem e as consequências são mais importações, embalagens, resíduos eletrônicos, brinquedos e eletrodomésticos quebrados.
Na mesma linha de raciocínio está outro estudo, este da Associação Internacional de Resíduos Sólidos (sigla em inglês Iswa), revelado essa semana pelo jornal O Estado de S. Paulo com exclusividade. Ele dá conta de que metade da população do planetaainda não tem nenhuma forma de coleta de lixo. Essas pessoas residem em regiões da América Latina, África e sudeste asiático. Isto significa menos resíduos que deixam de ser reciclados, mais problemas ambientais e de saúde. Seria necessário um investimento de US$ 40 bilhões para resolver o problema, segundo a Iswa.
A propósito desse assunto que sempre incomoda – mas do qual não podemos nos esquivar – a revista National Geographic Brasil preparou uma edição especial Resíduos Sólidos, que chegará às bancas de todo o país até o final de dezembro. A publicação está imperdível. Traz uma reportagem esclarecedora sobre a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), uma entrevista com o professor de Economia da USP, Ricardo Abramovay, autor do estudo Lixo Zero, publicado em versão digital pelo Planeta Sustentável, além de artigos de especialistas e um retrato do problema dos milhões de carros velhos que deveriam ser reciclados, mas estão abandonados nas grandes cidades brasileiras.
Imagem – Creative Commons