10 de janeiro de 2014

"Tudo tem a sua hora certa." Você também acredita nessa mentira?

Por Gabi Almeida

Quando engravidei aos 17 anos, a frase que mais escutei foi “não era a hora certa, mas…”. Sempre acompanhada de uma expressão penosa, essa frase me fazia sentir o peso de uma atitude errada e colocava sobre a minha gravidez um aspecto ruim. Eu estava feliz no meu íntimo e passava horas lendo artigos na internet sobre o desenvolvimento de bebês e significados de nomes, mas entre uma página e outra, me lembrava de sentir tristeza, afinal, não era a hora certa.

Nos cinco anos subsequentes fui mais mãe do que gente. Passei noites sem dormir, aprendi a entender as necessidades da minha filha só com o olhar. Cantei música da Xuxa, sucessos da Galinha Pintadinha e do Patati Patatá. Abri mão de muitos sábados e ainda o farei incontáveis vezes, mas também ganhei domingos, desenhos e declarações de amor do tipo mais sincero que existe: de filha para mãe. Minha experiência como mãe jovem e de primeira viagem foi e é igual à de incontáveis mulheres e casais. Erramos querendo acertar, acertamos sem querer e passamos dias dando o melhor de nós. É assim para mim, foi assim para a sua mãe e também para nossos vizinhos. Então por que diabos logo a minha filha não veio na hora certa?

A lição mais valiosa que pude extrair do conjunto de experiências dos meus 22 anos é que a hora certa é uma baita armadilha social, na qual caímos ao nascer e cujo peso carregamos até a morte. Quem nunca ouviu a expressão “não era a hora dele”? A receita de bolo diz que devemos nos casar até os 30 anos (depois disso estamos passando da hora). Se uma mulher chega aos 35 sem um filho está definitivamente se arriscando a “passar do limite” e perder a oportunidade de fazer o “certo”. Se um homem se casa aos 25, está jogando a vida fora. Se o diploma não chega até os 23, algo muito errado aconteceu. E assim, nossa vida tabelada de horas certas nos faz estar em melhor ou pior situação do que outros ao nosso redor, conforme o gráfico de conquistas x tempo.

O fato é que, quando conseguimos nos desvincular desse relógio coletivo, experimentamos a leveza de nos guiar por nossos próprios sonhos e nos sentimos mais seguros diante de nossas escolhas. Admiro quem tranca a faculdade e vai passar meses no exterior trabalhando em uma lanchonete para aprender outro idioma, sem medo de se formar um pouco mais tarde. Admiro quem se torna mãe e pai ainda na juventude e opta por dar o melhor de si, sem desculpas da pouca idade. Admiro quem termina um namoro e por sorte, duas semanas depois conhece um novo amor, e ao invés de correr no sentido contrário, adianta os ponteiros e faz da hora mais certa que nunca.

Seguir um roteiro pré-estabelecido para viver é penoso e pode nos custar viagens, amores e momentos, que uma vez jogados fora, não passarão novamente em nosso caminho. Para dizer não a uma oportunidade, seja ela qual for, tenha motivos coerentes. Quando disser não ao amor, tenha motivos honestos. Ao desistir, faça pela sua felicidade. Ao dizer sim, diga com segurança. Usar o tempo como escudo é frágil demais, basta lembrar que o nosso prazo de validade é desconhecido. Para viver, basta respirar, mas ser feliz requer coragem. Enfim, se for para seguir receita, que seja de um belo jantar.