26 de março de 2014

Bullying amoroso

Cada dia que passa tenho a mais absoluta certeza de que as pessoas tem sérios problemas com a realidade. Ou, melhor dizendo, com a dificuldade de adaptação do que se vende na indústria midiática com aquilo que efetivamente deve ser priorizado na vida real. Diariamente relacionamentos e modelos pessoais perfeitos são vendidos nos mais diversos meios de comunicação como sendo um padrão de beleza e comportamento considerados ideais, fato que tem levado a falência muitas parcerias feitas de carne, osso e vontades. O imaginário do ser humano aliado às cruéis expectativas individuais leva à supervalorização de determinados parâmetros e a inferiorização de outros que, não demora muito, termina no famoso bullying amoroso de uma das partes.
Na maioria das vezes se demora a perceber a imensidão do problema em jogo. A gente arruma desculpas para si, justificativas para o outro, se sobrecarrega de culpas, receios, medos e quando se vê a bagagem emocional está ali, encostada silenciosa no cantinho escuro do quarto calando uma liberdade que pode ser ouvida a quilômetros de distância. Justamente porque o bullying amoroso é talvez um dos comportamentos mais sutis que pode existir entre duas pessoas. Quando se assusta já virou hábito, rotina, aceitação. É a depreciação da opinião do outro muitas vezes publicamente, as contínuas manifestações de insatisfação com o corpo do parceiro (a) que levam a uma consequente diminuição da libido e da atividade sexual, o menosprezo com as crenças, o jeito de falar, de vestir, de viver, de amar.
Não tem nada na vida pior do que ser comparado a um padrão que simplesmente não existe. Querer ter do lado alguém com o corpo de modelo internacional, performance de atriz/ator pornô, a inteligência da Marília Gabriela, que seja além de tudo capaz de parar o trânsito fisicamente e de cuidar de você durante uma crise de rinite, é comprar uma expectativa fictícia e, cá entre nós, bem tediosa. Aquela particularidade que para um não é atraente, para o outro é algo absurdamente encantador. É tudo questão de ponto de vista, ou melhor, de onde e de que forma está vindo o olhar. Amor, parceria e cumplicidade não são algo que se conquista baseado em estereótipos e comédias românticas. Um relacionamento é feito de pessoas inteiras, com qualidades, defeitos, anseios e desejos absolutamente reais. Ou a gente ama o pacote todo que o outro nos oferece, ou procura alguém que preencha melhor nossos “pré-requisitos” em um relacionamento.
A verdade é que não existe força de vontade e amor no mundo que sobreviva a falta de respeito. Tem quem ainda tente passar por cima de tanta agressão emocional e se esforça ao máximo para agradar, corresponder, resgatar uma relação fadada ao fracasso. Mas o fato é que não deveria. A única responsabilidade que se deve amargar é a de deixar outra pessoa ferir o que se tem de mais importante: sua essência. Não existe nada mais doentio do que permanecer em um relacionamento que agride sua autoestima. Até porque a gente não corresponde nem às nossas expectativas, quem dirá às dos outros. Relacionamento foi feito acima de tudo para ser colo, aconchego e paz. Se a alma não se sente mais abraçada, se o aperto no peito for frequente, se em algum momento por menor que seja a gente deixa de se sentir integralmente desejável aos olhos de quem caminha lado a lado com nossas certezas, é infinitamente melhor continuar a travessia sozinho (a).
Amor é acima de tudo uma escolha. Assim como a permanência. Entra na nossa travessia quem faz por merecer. Sai quem ultrapassa os limites entre quem eu sou e quem você espera que eu seja. A vida, os relacionamentos, os romances, cada qual com suas peculiaridades, são únicos justamente por serem vividos por pessoas reais. Nada é tão reconfortante quanto estar ao lado de alguém que está com a gente simplesmente pela gente. Eu chamo isso de respeito e é o mínimo necessário em qualquer parceria. Caso contrário, este túnel tem duas saídas bem conhecidas: ou soma, ou sumo.