8 de abril de 2014

PERSUASÃO

O ALVO É SUA MENTE
A Primeira Aula de Advocacia da História da Humanidade
Nacir Sales
A advocacia nasceu nas praças, um produto da democracia. Nas Assembléias gregas todos podiam pleitear, acusar, reclamar, contestar, defender e, sim todos, podiam votar: absolver ou condenar. O povo decidia sobre a vida, sobre a morte, sobre o certo e o errado, a guerra e a paz.
Mas também decidia questões triviais, conflitos comerciais, danos materiais, desentendimentos, quebra de compromissos.
Logo uns absolviam mais que os outros.
Muito rápido, uns se tornaram conhecidos por condenarem outros mais que os outros.
Estes conquistadores de mentes, de votos, foram logo contratados, ou para ensinar a convencer ou para eles próprios convencerem os outros em nome do outro: surgiu a advocacia, grosso modo a 500 anos antes de Cristo (também julgado e condenado, indefeso).
Convencer, vencer, defender, este foi o motivo original da advocacia.
O PRIMEIRO GRANDE DEFENSOR FOI CONDENADO À MORTE
SocratesSócrates defendeu a si próprio. O sistema era assim: um vaso cheio de água vertia seu conteúdo por um tubo localizado na parte inferior. Ao término da água, terminava o tempo da defesa. Mas Sócrates, mesmo antes de ser julgado ou de promover sua defesa já estava condenado. E isto acontece hoje em dia também. Sócrates jogou luzes em um sistema trevoso e este mesmo sistema o condenou com antecipação: existem réus que entram na sala de audiência já tendo o Juiz uma prévia sentença, um julgamento antecipado, a audiência é apenas para formalizar a relação. Nestes casos, da mesma forma que o Juiz quer apenas realizar um ato técnico previsto na regra, o Advogado deve atuar de forma sutil, olhando à frente, com preciosismo, de olho no recurso, trabalha em silêncio, sem ser notado ou compreendido no momento, sequer seu cliente o compreende, o objetivo já não é mais aquele julgador mais o Juízo revisor do Tribunal a quem recorrerá.
Após o julgamento e condenação de Sócrates, o interesse pela persuasão, o argumento, a oratória, cresceu no mundo Helênico: afinal se até Sócrates que era homem justo, probo, honrado, simples e inatacável poderia morrer pela injustiça, o que dizer do cidadão comum?
Com a morte de Sócrates nasceu o Segundo Erro Judiciário que se tem notícia, a Justiça Injusta, falível, política, humana.
O PRIMEIRO ERRO JUDICIÁRIO
Primeiro Erro Judiciário foi a condenação dos comandantes da frota ateniense que derrotaram o a armada espartana. Após derrotar o inimigo, os comandantes foram recebidos no porto sob ordem de prisão, quando esperavam um festejo, uma recepção com honras aos heróis. Políticos tementes do poder militar manobraram a calúnia e sob a acusação de que tais líderes abandonaram combatentes atenienses ao mar, na pressa de receber as loas da vitória, conseguiram colocar o povo em revolta: era fácil, tratava-se de estimular viúvas e órfãos tomados pela histeria que hoje conhecemos como DOUTRINA DO CHOQUE, tal qual concebida pela Escola de Chicago, experimentada nos golpes autoritários da América Latina e convertida em tática na chamada Guerra Preventiva da era Bush, iniciada com o 11 de Setembro este a maior expressão da Doutrina do Choque havido em territórioNorte Americano (esta previsto a publicação neste mesmo Blog,  artigo dedicado à DOUTRINA DO CHOQUE).
Sócrates se opôs a manobra política e começou ai se destacar como…. a próxima vítima: os militares foram condenados também aos goles de cicuta, a mesma substância da injustiça cujo sabor Sócrates beberia, mais tarde, em seu momento derradeiro.
NASCEM AS DUAS PRIMEIRAS ESCOLAS, SIMULTANEAMENTE
Morreu Sócrates e nasceu também, anos após, as duas principais Escolas dedicadas àPersuasão: a de Isócrates e a de Platão.
O primeiro comprometido com a eficácia, com o convencimento, o segundo totalmente devotado à verdade.
plataoPlatão tornou-se platônico ao afirmar que a persuasão só deveria ser utilizada pelo Réu Culpado para convencer seus julgadores a condenar a si próprio, pois não havia condenação maior do que ser absolvido por uma decisão injusta, a honra do culpado estava em ser condenado e ele deveria utilizar a argumentação, a oratória, a persuasão em busca de tais objetivos.
Platão foi o grande guardião da Justiça, sua obra reflete o sofrimento de quem perdera o amigo e mentor Sócrates para o sistema da Injustiça.
Isócrates interessava-se tão só em vencer e convencer, a verdade não importava. Não precisa dizer que sua escola superava a Academia de Platão em número de alunos. A verdade fazia menos sucesso que a Justiça.
Enquanto Isócrates fundava a persuasão, Platão coloca sólido pilar em obra mais profunda: a Filosofia.
Mas Isócrates olhava para o lado e via toda espécie de oradores, até mesmo a pior espécie. Logo, passou a admirar Platão e deferir a ele alguma homenagem. Embora se interessasse exclusivamente pela eficiência de seu método, sem realizar um juízo de valor nos fundamentos éticos daquele que usava suas técnicas de persuasão, respeitava Platãopelo total comprometimento do filósofo com a virtude e a verdade.
E o mesmo aconteceu com Platão, que se rendeu ao reconhecimento de que Isócratesconstruíra um sistema funcional, descomprometido, mas funcional.
ARISTÓTELES ENTRA EM CENA
aristotelesNo meio de ambos surgiu um ator importante nesta história: Aristóteles, que derrotouIsócrates em um debate e que foi convidado para ensinar persuasão na Academia pelo próprioPlatão de quem se tornou discípulo.
Aristóteles resolveu a questão observando que um machado poderia se prestar para um fim mal, embora não fosse mal a sua natureza.
Assim também uma pedra poderia ser utilizada para matar, ou para construir.
Então isolou o mal do instrumento da maldade e legitimou a persuasão como instrumento para construção do bem.
Aristóteles benzeu a ferramenta e começou a estudar a arte, levando sua técnica a um patamar superior.
Mas a persuasão não era apenas um instrumento para fins forense, prestava-se para mais, para fins diplomáticos, políticos, religiosos, prestava-se para muito, muito mais.
A TESE DA CAPTURA
A cena é antiga: um fala outro escuta. Com o tempo, um fala dois escutam, três, uma multidão. A Tese da Captura realiza a política de Anexação dos Territórios. Uma mente capturada é um território. Um milhão de mentes capturadas, novos territórios, novas bases para novas operações. É um processo de contaminação que salta de nação para outra tal é a vocação e o desejo de ser capturada.
Você é o território a ser conquistado. Conforme a Tese da Captura sua mente é alvo do ataque de instituições, entidades e crenças. Onde existe um cérebro pensando existem inúmeras e simultâneas tentativas de invasão ao seu sistema de crenças, aos seus códigos morais, à sua bolsa de valores. Escravizar o seu cérebro, este é o objetivo dos que utilizam aTécnica da Captura. Um cérebro escravo contribui para o fortalecimento da entidade ou da crença que o escravizou. É o que a psicopolítica chama de “idiota útil“, aquele que bate palmas, balança a bandeira e paga a conta.
O IDIOTA ÚTIL
Explicando: cada cidadão é uma unidade que se capturado fortalecerá o todo, assim pensam entidades das mais diversas naturezas, seitas religiosas, ideologias políticas e, pasmem, corporações empresariais. As mais diversas indústrias adotaram a sua mente como alvo, a indústria da música, os ídolos, o cinema, a indústria cultural, cigarros, alimentos, bebidas, todos querem o mesmo alvo (e o mesmo bolso). Ninguém chega até ao seu bolso senão antes dominar a sua mente, a mente é o alvo primário, o bolso o alvo secundário.
Preconceitos, partidos políticos, torcidas de futebol, muitas e diversas são as crenças invasivas que pretendem fincar bandeira em seu território. E, para isso contam com um aliado em potencial: o seu desejo de pertencer a um grupo, a uma espécie distinguida de gente que além de lhe aceitar, empresta a você os seus símbolos, sua identidade. O “pertencimento” é uma vontade louca de pertencer a determinado grupo, herança de nossas origens tribais, afinal, o homem é um animal gregário por natureza. Quanto mais avança o isolamento e a solidão dos tempos modernos e da vida cosmopolita, mais aumenta a força de persuasão daqueles que tem por objetivo capturar a sua mente, maior é a carência e o desejo de pertencer, do cérebro ser anexado, colonizado, etiquetado.
O FLAUTISTA DE HAMELIN
Tese da Captura tem origem nos contos de fadas, nas histórias fantásticas e não escritas, transmitidas pela oralidade e que formavam um sistema mágico de encantamento, cujo objetivo era aprisionar, capturar a crença e, ao seu modo e ao seu tempo, educar: este processo atravessou os tempos e chegou até você, a quem lhe contaram mais de uma história infantil, fantástica, ilógica e absurda e de tal forma fascinante que logrou de capturar a atenção e a crença pueril. Muito antes dos Irmão Grimm escreverem seus clássicos,  Platão no Segundo Livro de República já advogava a censura às fábulas, segundo ele um “tecido de mentiras” e como “tudo depende do começo, sobretudo tratando-se de crianças, porque nesta idade as suas almas, ainda que ternas, recebem facilmente todas as impressões”, temia Platão que o temor à morte fosse instalada nas crianças, prejudicando a formação de guerreiros para a proteção futura do estado ideal: guerreiros que temem a morte tendem  à deserção ou à rendição, escolhendo a escravidão pelo inimigo à morte, se temida.
Os que utilizam a Tese da Capura querem dominar e, quando conquistam cravam sua bandeira, seu logotipo. Uma marca tem o poder de afastar outra, como que dizendo “este território já foi conquistado“. Então, quando uma ideologia se aproxima de uma mente e vê um símbolo distintivo (o logo de um partido político, por exemplo) a predadora vai buscar outro alvo, pois este está cativo. Símbolos que deferem uma exclusividade são também excludentes. Se um sinal marca a sua testa outro não conseguirá virar colar em seu pescoço, uma crença exclui a outra. A energia para se conquistar um alvo livre é muito menor do que a energia para expulsar uma crença e substituir por outro.
Al Ries e Jack Trout chamou à mesma técnica de POSICIONAMENTO, introduzindo o termo para a aplicação no marketing. Da gestão estratégica das marcas, migrou para o marketing político e daí, para ser apropriada pela psicopolítica, foi só um pulo.
A TÉCNICA EM MÃOS DOS AÇOGUEIROS
Contudo, a técnica é mais antiga: quando se formou o segundo cérebro já havia massa crítica para o jogo da dominação, percorreu as cavernas, as aldeias primitivas, habitou o Olimpo, a antiguidade grega, compareceu ao juízo de Sócrates, arregimentou legiões de soldados das mais diversas etnias, romanos, egípcios, peregrinou pelos desertos, visitou as masmorras da Idade Média, conduziu multidões em marchas firmes nos mais diversos campos, hipnotizou milhões a caminho da morte e acompanhou a todos até o momento derradeiro. Batizou pátrias, derramou o sangue de seus conquistados. Entronizou Napoleão, desenvolveu-se nas escolas stalinistas que competiram com as leninistas.  Formou o caldo de cultura da comunicação nazista. Inspirou bandeiras, revoluções, justificou o assassinato político de populações, explodiu para o mundo sob a forma de logotipos, logomarcas e logo conquistou a China. Migrou para a América Latina e a América do Norte onde encontrou seu estado de arte.
Hoje começamos este estudo, os primeiros passos para compreender a ação da Filosofia na formação do convencimento, do posicionamento e do julgamento. As ferramentas usadas para a construção e para a desconstrução.