26 de agosto de 2014

CASTELO RÁ-TIM-BUM: PORQUE TUDO PODE TER UM POUCO DE VIDA

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"Por dentro de uma pequena criança, há sempre um grande castelo. Uma palavra a ser descoberta ou uma nova mágica a ser inventada. Dentro de uma criança, o lúdico é realçado e a inteligência aguçada em tons de rima e jogos de adivinhação. O Castelo Rá-Tim-Bum, série que marcou a geração infantil dos anos 90, apenas tomou consciência disso e bateu em nossas casas, fazendo uma simples e amigável pergunta: posso brincar?!

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Só é adulto quem já foi criança - e crescido quem já foi pequeno. Eis um fato que não podemos negar; antes de sermos donos do nosso próprio nariz – ou chafariz - um dia já nos divertimos com um rápido lavar de mãos. E podemos confessar, sem vergonha alguma, nossa mais autêntica e convicta ingenuidade ao ter respondido em voz alta o personagem maquiado do outro lado da televisão.
As imagens vividas na própria infância, podem ser sentidas e guardadas somente por quem as viveu. E por essa clara razão, é tido a cada um a medida exata daquelas que mais marcaram. Ninguém melhor para reconhecer a textura e o cheiro que exalam; e ninguém mais apto para saber - sem se enganar - quais despertam uma sensação única ao serem "tocadas".
Resgatar essas lembranças é, sem dúvida, uma atividade inteiramente particular, e palavras se tornam insustentáveis para explicar seu rico valor subjetivo . Mas, mesmo assim, ainda é possível encontrar um traço homogêneo, que liga gerações e gerações numa espécie de memória coletiva. Esse traço, precisamente no ano de 1994, teve um toque especial com a série infantil Castelo Rá-Tim-Bum, que soube reunir num só lugar: sonhos, magia e - principalmente - educação.
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Apesar de ser um grande desafio, a inserção do método educativo no meio televisivo não foi uma combinação considerada nova para a época, visto que produções como O Sítio do Pica-Pau Amarelo (teleteatro em 1951 e telenovela em 1977) e Vila Sésamo (1972) – adaptação tupiniquim do influente norte-americano Sesame Street (1969) – já haviam servido como fonte de conteúdo e pesquisa para posteriores criações.
Castelo Rá-Tim-Bum, nosso objeto de "apreciação", recebeu inspiração direta de outros programas já realizados pela emissora de onde surgiu: a TV Cultura; que havia nos presenteado alguns anos antes com Rá-Tim-Bum (1990) e também Mundo da Lua (1991).
Sua idealização veio do dramaturgo Flávio de Souza e do diretor Cao Hamburger (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias Xingú), ambos nascidos em São Paulo. Daí um dos fatores para situá-lo entre edifícios - que é uma imagem bem mais próxima do público - e não em uma sombria montanha.
A primeira intenção, foi a de integrá-lo no cogitado projeto denominado Rá-Tim-Bum II, e se restringia a um curto trecho pedagógico, que seria apresentado pelo personagem Doutor Victor. Mas, assim como o oceâno não pode ser engarrafado, os elementos adicionados a esse possível quadro não cabiam numa duração tão breve. Logo, se fez necessário sua ampliação, para dar luz a outro "invento", que acabou por ganhar corpo no extenso material de 90 episódios.
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Grande equipe que se empenhou na realização de um grande programa
Para uma criança tudo é tocável, quando não pelas mãos, pelos olhos. E nesse sentido, o cenário do castelo é um prato cheio para se admirar. Passagens secretas, objetos tomados de cores que chegam a saltitar e móveis desenhados sinuosamente, convidam a todo instante o espectador de primeira viagem - e até o mais experiente - a mergulhar nos mistérios da história. Sua arquitetura, não menos enigmática, traz o ar de Antoni Gaudí (1852-1926), brilhante personalidade que se inspirava pela infinita estética da natureza.
Lareira.Ok.jpg Convidativa sala de música, apenas esperando alguém se sentar em frente a lareira, para assistir uma agradável apresentação de marionetes
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Da esquerda para a direita: fotografias da família Stradivarius, o enfeitado relógio e o hall de entrada, com a porta que muitas crianças já quiseram abrir.
A força do enredo, por sua vez, é distribuída entre a peculiaridade e trejeito de certos personagens, que se alternam em cada capítulo. Alguns através de curtos blocos que se encaixam durante o desenrolar de ações e outros que interagem diretamente com os habitantes do castelo.
O centralizador de tudo e todos é o aprendiz de feiticeiro, de 300 anos, chamado Antonino Stradivarius Victorius II, popularmente conhecido como Nino - que por via de curiosidade, possui um sobrenome muito semelhante ao do famoso luthier italiano Antonio Stradivari (1644-1737), que viveu há mais de três séculos e jamais teve o segredo das suas técnicas de construção totalmente desvendadas.
Interpretado pelo ator adulto, Cássio Scapin, Nino nunca frequentou uma escola, devido a idade nada comum que possui, e por isso, sente-se solitário sem ninguém para brincar. Até o dia que, por meio de uma magia aprendida com o tio, consegue atrair para o castelo aqueles que seriam seus queridos amigos e fiéis companheiros de aventura: Pedro, Biba e Zeca.
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Nino, Pedro, Zeca e Biba: algo não saiu como o esperado.
Tal encontro, foi o pontapé inicial para a exploração de um vasto universo, que harmonizava o que de melhor existe na educação sadia com o que tem de mais legal na curiosidade envolvente do aprendizado. Seu diferencial, aliás, não estava somente no inerente teor lúdico, mas sim, na sutil tentativa de descobrir a linha tênue entre realidade e conto de fadas.
O castelo tratou de quase tudo - considerando esse "tudo", a lacuna preenchida deliberadamente pela imaginação de uma criança. Tratou da higiene pessoal à relações familiares, da matemática e português à história, geografia e ciências.
Quando menos se percebia, num "passe de mágica", todos os personagens se articulavam em cima do assunto da vez. E contribuíam não apenas para o aspecto cognitivo, mas também no caráter estético que agregava à personalidade daqueles que os assistiam.

O clássico "Lavar as mãos", que mostrava como essa "arte" pode ser divertida, traz a voz do cantor Arnaldo Antunes.

Tia Morgana e Tio Victor levavam sabedoria e ordem, respectivamente. Morgana, com seus impressiontes 6 mil anos, conseguia abarcar boa parte dos acontecimentos da humanidade, relatando, por exemplo, conversas tidas com Salvador Dalí e Freud; ou então, descrevendo eventos que estava presente, como nos bailes do rei Luís XIV, na França.
Já o Tio Victor, com 3 mil anos, estabelecia as responsabilidades do sobrinho, proibindo-o de fuçar em suas coisas, quando saia para trabalhar. E sua furia, em determinados momentos, evocava em voz alta os "raios e trovões", que chegavam a refletir no vidro das janelas.
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Morgana, tio Victor e a curiosa Adelaide; concentrados em um jogo mágico de xadrez,
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Tio Victor conhecia o sobrinho que tinha, por isso um aviso nunca seria demais.
As charadas aos visitantes eram elaboradas pelo porteiro, um ser de lata azul, com chapéu amarelo e nariz de palhaço. Que somente permitia a passagem pela porta principal se as mesmas fossem solucionadas, dizendo sua onomatopéica frase - "Plift, ploft, still, a porta se abriu!". O alvo, na maiorioria das vezes, era o animado trio formado por Pedro, Biba e Zeca.
Juntando-se ao Nino, os três criavam o elo afetivo dentro do castelo. Tanto é, que em diversas ocasiões, todos podiam colaborar na construção de uma ideia ou proposta de brincadeira. Pedro sempre sugestivo e Biba, a mais responsável da turma, tinham idade escolar muito próximas. Zeca, caçula e sapeca, também era responsável, mas pelas chamadas do quadro "Porque sim, não é resposta!"; que além de instigar a busca pela compreensão de certas coisas - como a causa do pensamento - trazia o hoje apresentador de televisão Marcelo Tas, no papel de Telekid.

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Todos se ajudavam para desmascarar o Dr. Abobrinha.
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Mais uma, das centenas tentativas de Nino em aplicar feitiços que recém aprendeu.
Nino, quando não inventava o que já existia, montava aparelhos no mínimo curiosos, como no dia em que fez a "matemáquina". Instrumento tecnológico com função de operar cálculos matemáticos em objetos reais, incluindo, por exemplo, a acidental duplicação do extraterrestre Etevaldo - interpretado pelo ator Wagner Bello, que devido uma fatalidade maior que essa, a AIDS, veio a falescer no período de gravação. A decorrente explicação dentro do castelo para essa ausência, foi a sua mudança para um longínquo planeta.
A delicadeza como eram conduzidas tais mensagens, fazia-se visível na figura do mau, representado por um indivíduo que só fala "abobrinhas": o vilão Pompeu Pompilho Pomposo, ou melhor, o próprio Doutor Abobrinha - que foi cortejado com o apelido após sua primeira aparição, onde perdeu a voz depois de um feitiço proferido por Morgana.
Suas tramóias, literalmente aparatadas dos pés a cabeça, sempre caiam por água abaixo quando alguém puxava parte do disfarce. A revelação de sua falsidade alegórica, por fim, atestava a inevitável derrocada da ganância pelo poder e a inútil tentativa de ludibriar os moradores - ou qualquer pessoa que seja.
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Quando Etevaldo chegava era diversão - e confusão - na certa. Teve que se mudar, mas deixou saudades e muitos sorrisos.
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Dr. Abobrinha nunca perdia a esperança de conseguir uma assinatura para derrubar o castelo.
Os encanamentos do castelo também era ocupado por outro Mau, que corria entre eles fazendo um estrondoso barulho, anunciando sua vinda com o repetido - "Tô chegando". Mas a bem da verdade, é que o bichano de pelos roxos e unhas grotescas carregava apenas o título de malvado, pois frequentemente recebia a intervenção de Godofredo, seu companheiro, nas histórias que nada tinham de "horripilantes", visto que ele jamais conseguia realizar o que tinha planejado - inclusive, fazia o contrário, pois acabava ajudando aqueles que seriam seu alvo. Como prova de sua indignação, desafiava os telespectadores num trava-línguas, dos quais teriam de acertar para não ouvir sua temida "gargalhada fatal".
O leque de figuras existentes no castelo era análogo ao de um saco de brinquedos e doces sortidos, onde independente do que se puxava, uma bonita surpresa aparecia. Ora tínhamos um agitado entregador de pizzas, com nome de instrumento musical, o Bongô; ora aprendíamos sobre o universo físico com um, ou melhor, dois cientistas muito peraltas que se confundiam na apresentação inicial de quem era quem, o Tíbio e o Perônio.
Mau e Godofredo.Ok.jpg Godofredo e Mau, que não era tão mau assim.
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Tíbio e Perônio, quer dizer, Perônio e Tíbio.
Da tradição folclórica às lentes da mídia, o Castelo Rá-Tim-Bum recebia o brilho dos visitantes, que literalmente traziam mais cor para enfeitá-lo. Com uma grande juba vermelha, reconhecia-se rápido a performática Caipora, que surgia cortando o vento no mais leve assobiar que escutasse. E a chocante peruca rosa não deixava dúvidas, era a Penélope esbanjando charme, procurando mais um "furo de reportagem" para colocar no seu telejornal.
No grupo de animais falantes havia a reclamona cobra Celeste, que sonhava mais do que tudo possuir asas para ser livre - inclusive, em um capítulo intitulado "Sonhos", ela chega ao ponto de construir uma para si. Já o gato pintado - que tinha apenas duas cores, branco e laranja - era menos melancólico e mais estudioso, pois tomava conta da enorme biblioteca de 1005 livros, contados e conferidos um a um por ele.
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Caipora dizia conhecer mais histórias da floresta do que o número de estrelas que existem no céu.
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Gato pintado, Celeste e Mau, manipulado por Cláudio Chakmati.
Sua apreciação pela literatura e arte também podia ser notada na gralha Adelaide, um tanto mais ingênua, claro, mas que já era suficiente para motivar a dúvida, sanada imediatamente pela ótima explicação de Morgana.
O ratinho, ao contrário dos outros, passava rápido e não falava nada, apenas cantava. O que fez seus quase "jingles" ficarem tão marcados, como o "Meu pé, meu querido pé" e o "Lata de Lixo".



Haviam outros personagens que falavam, mas em nada se pareciam com animais: era o dedo indicador Fura-bolos, que adorava fazer somas e se apresentar com a "Dedolândia"; e a dupla da pesada Tap e Flap, "pezudas" botas de voz grossa e topete bagunçado; que sintetizam perfeitamente o espírito do castelo numa pequena frase - "Nesse castelo, Biba querida, qualquer coisa pode ter vida!". Tap e Flap.Ok.jpg 
Tap e Flap, que sempre falavam rimando, fazendo uma visita a Nino, na oficina do Tio Victor.
Mais no alto, ninho e lustre também eram habitados. No primeiro, pelo João de barro e as duas melodiosas patativas - os passarinhos - que faziam qualquer um permanecer estático, tentando decifrar qual o nome do instrumento que fazia o som. E no segundo, pelas irmãs Lana e Lara, que realizavam simpáticos truques de fada para brincarem juntas.
E por ultimo, o personagem mais pontual do castelo: o próprio relógio. Que além de anunciar a chegada do tio Victor, chamava a atenção de todos para a entrada do quadro de Morgana, dizendo a sua bem humorada frase - "morcego, ratazana, baratinha e companhia, está na hora da... feitiçaria!".
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Rodeadas de imagens, desenhos e recortes, Lana e Lara sempre arrumavam um pretexto para aprender e ensinar.
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O relógio que nunca deixou atrasar uma diversão - nem a hora de ir embora.
Há 18 anos o Castelo mais Rá-Tim-Bum de todos os tempos estreava. Tanto na televisão como em nossos corações. Ganhou prêmios de melhor programa infantil - incluindo a prata no Festival de Nova York - e alcançou índices de audiência que surpreenderam a categoria.
Mas, todas as honras não foram senão a consequência de um mérito conquistado por excelência: o de contribuir na formação - e informação - do indivíduo. Que, mesmo a distância, era transformado em protagonista e fazia suas respostas serem ouvidas.
Nota: Para festejar a "maioridade" do Castelo, a TV Cultura disponibilizou todos os episódios no seu canal do Youtube e criou uma página virtual dedicada ao programa - de onde as fotografias desse post foram retiradas. Fuce como se fosse criança! http://cmais.com.br/castelo http://www.youtube.com/user/videocasteloratimbum

OBS: O Castelo Rá-Tim-Bum fez em 2014, 20 anos.

FONTE: © obvious: http://lounge.obviousmag.org/gincobilando/2012/09/castelo-ra-tim-bum-onde-tudo-tem-um-pouco-de-vida.html
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