20 de setembro de 2014

20 de Setembro

Gosto muito da cultura tradicionalista do Rio Grande do Sul, dancei em CTG, andei bastante à cavalo, estudei e vivi a nossa cultura em alguns pagos por aí... Mas sempre me perguntei o porque de comemorarmos esse dia, sendo que foi o dia em que perdemos uma guerra e todos os ideais que tínhamos para nosso RS foram engessados como os de outros estados.
Então, que a nossa cultura tradicionalista gaúcha permaneça sempre com a chama acesa, cultivemos as músicas e danças gauchescas, as lidas, as rodas de chimarrão e tudo o mais que nossa cultura tradicionalista envolve para o ponto positivo. Porém, também façamos essa reflexão que o Gabriel Divan fez, e que eu fiz a partir do texto compartilhado por ele.

"Se há uma coisa que é verdadeiramente "tradição" no Rio Grande do Sul, desde 1835, são aristocratas ficarem choramingando em relação a "impostos" e encobrindo a lamúria com algum nome pomposo e (suposto) objetivo político maior.
Lamento, mas não 'comemoro' - como muitos - na data de hoje, uma guerra perdida como se tivesse sido ganha. Aliás - posso estar errado - é talvez o único caso de um orgulho institucionalizado em relação a uma "revolta" que não deu em nada.
A respeito do 'hino riograndense', duas coisas:
sou capaz de citar muitos, mas muitos mesmo, povos que tinham muita 'virtude' e que foram covardemente escravizados;
em relação ao fato de que todos os líderes 'revolucionários' terminaram a vida "assalariados" (ou 'pensionistas') do próprio Império de quem eles 'queriam' independência, e vendo o modo como as alianças políticas agem hoje em dia, a "façanha" dessa turma que vem servindo de "modelo", pelo visto, é a corrupção.
(como já cansei de compartilhar o famoso "Manifesto..." do Tau Golin, nessa época, vai aí o texto do Viracasacas sobre o episódio do Casamento Gay no CTG)."


SIRVAM NOSSAS VERGONHAS DE MODELO A TODA TERRA


Havia prometido a mim mesmo que não escreveria nada neste ano a respeito da semana farroupilha, mas diante do ocorrido recentemente (o incêndio do CTG onde se realizaria um casamento homoafetivo em Santana do Livramento) e dos comentários preconceituosos e limitados que sou obrigado a ler, não consegui me aguentar. Estou plenamente consciente das repercussões negativas, das discordâncias que virão, das acusações e etc., mas é impossível se calar diante de tais circunstâncias.
No Rio Grande do Sul se venera uma história falsa com heróis inventados, utilizando isso para fundamentar preconceitos e atitudes retrógradas. Não tenho nada contra quem gosta de música gauchesca, gosta de se pilchar, andar a cavalo e tudo o mais. Não é a isso que me refiro. Só penso que temos que botar os pingos nos is.
É comum se pensar e cultuar a revolução farroupilha como se tivesse sido um movimento separatista, republicano e abolicionista. Mentira. Vamos por partes. Os farroupilhas, em sua grande maioria, nunca quiseram se separar do Império brasileiro, o que eles desejavam era um estado federativo onde o estado tivesse maior autonomia na questão tributária e de fronteiras, para beneficiar os proprietários de terras e apenas eles. Não se pensou no caboclo, no índio ou no trabalhador das estâncias. Os líderes do movimento, todos eles estancieiros, buscavam apenas o que era melhor para os seus interesses, exclusivamente. O ato de Neto, ao proclamar a república rio-grandense, trouxe surpresa a muitos líderes farroupilhas e foi um ato para afirmar as exigências do grupo. Se não fosse este o caso, porque diversos farroupilhas, finda a revolução, acabaram ingressando no exército imperial?
O mito do abolicionismo farroupilha é de revirar o estômago. Se os revolucionários queriam tanto dar a liberdade para os escravos porque não o fizeram durante a revolução? Passaram-se dez anos e os escravos foram meramente transformados de trabalhadores açoitados pelos estancieiros a bucha de canhão para os farroupilhas. Existem fortes evidências, inclusive, que o “herói” David Canabarro levou para a morte todos os negros de seu batalhão em Porongos para forçar o acordo de paz com o então Barão de Caxias.
Mais do que isso ainda: qual foi o destino dos escravos que lutaram pelos farroupilhas? Enviados para o Rio de Janeiro para prestar trabalhos forçados ao Império, ou seja, continuaram a ser escravos. Enquanto isso, os líderes da revolução foram indenizados e levaram de volta para suas estâncias mais escravos. Porque continuariam a ter escravos se fossem abolicionistas?
A revolução farroupilha foi um movimento dos ricos para os ricos. Dos poderosos para os poderosos, nada mais. Liberdade para se ganhar dinheiro, igualdade na hora de se cobrar impostos e humanidade para os ricos e brancos.
Apesar disso, hoje a revolução e seus heróis possuem igrejas próprias onde o culto a uma história criada é praticado diariamente e onde os mesmos preconceitos do século XIX é mantido quase intacto. Nestes lugares não são aceitos gays e as mulheres devem cumprir um papel pré-designado de segundo escalão. Não é estranho a ninguém a cultura homofóbica e misógina de um CTG, bem pelo contrário, parece que é um lugar criado exatamente para proteger esta cultura machista do resto do mundo.
Neste momento podemos ingressar na questão do casamento gay em Santana do Livramento. Os opositores de que isso acontecesse atuam da mesma forma que qualquer fanático religioso. Deve-se respeitar o local, deve-se respeitar as tradições. Vejam: A união do casal de mulheres dar-se-ia durante um casamento coletivo. Este fato é de suma importância. Ninguém estava obrigando o CTG a sediar a cerimônia, pintar suas paredes de cor-de-rosa e ostentar uma bandeira do arco-íris. Vários casais iriam celebrar sua união e, entre eles, havia um casal homoafetivo. Aí entra a principal parte. Como, em um Estado Democrático de Direito, um local não-religioso pode se negar a atender uma determinada camada da sociedade? O patrão do CTG não ia celebrar o casamento, o CTG era o mero local onde isso ocorreria.
Qual o próximo passo? Um hotel que não aceita índios? Um clube que não aceita mulheres, a não ser como empregadas? Segregação em terras brasileiras, era só o que faltava.
Todos possuem o direito à livre associação e reunião. Qualquer um que queira se reunir para ouvir música ou dançar pode fazer isso. O que não é aceitável é continuar a se utilizar de um escudo chamado “tradição” para perpetuar atitudes preconceituosas.
Todos que possuem noção disso têm o dever de se manifestar. Uma parte da população gaúcha (apenas uma parte, que fique claro!) está manchando todo um estado. Em poucos dias a imagem do gaúcho, nacional e internacionalmente, é a de uma pessoa racista e preconceituosa, o que não corresponde com a realidade. Chega de desculpas, é hora de mudanças, antes que mudem nosso hino para “Sirvam nossas vergonhas de modelo a toda a terra.”.
P.S. É lógico que nenhum dos fatos aqui colocados foram de minha autoria. Para quem quiser saber mais sobre o assunto existem ótimas obras dos historiadores Tau Golin, Juremir Machado da Silva, Moacyr Flôres e Sandra Pesavento, entre outros.