7 de abril de 2015

Por que você deve ler contos de fadas

“Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser mortos.” G.K. Chesterton.
Esta frase, com certeza, é uma das mais conhecidas do escritor e pensador Gilbert Keith Chesterton; importante, pois não só retrata a imaginação infantil vista muitas vezes pela ótica adulta, mas também retrata os benefícios que os contos de fadas podem fazer a uma criança. Muitas vezes os pais reprimem os filhos por lerem ou verem histórias muito fantasiosas, por medo de que a criança “não viva nesse mundo” ou que “não vá saber enfrentar os problemas reais”. Mal sabem esses pais que os contos de fadas trazem mais benefícios que frustrações na vida de uma criança.
Em seu livro “Ortodoxia”, mais precisamente no capítulo “A ética da terra dos elfos”, Chesterton se propõe a mostrar a importância dessas histórias e os erros ao chamarmo-las de surreais, irracionais e até ilógicas. O Querubim Gigantesco – como Chesterton era chamado por Bernard Shaw – demonstra que não há nada de ilógico ou de louco em contos de fadas. Primeiramente, faz-se necessário lembrar que histórias de fadas pertencem a uma tradição e, assim sendo, tomam conta do imaginário e da mente de várias pessoas, sendo, certas vezes, consideradas até ordinárias. Pois bem, para Gilbert, em “sua” filosofia, a democracia era estabelecida da seguinte maneira: “as coisas comuns a todos os homens são mais importantes do que aquelas que são peculiares apenas a alguns.”, ou seja, “as coisas ordinárias têm mais valor que as extraordinárias”(Ortodoxia, p. 76). Logo, pode-se compreender que, de certa forma, democracia e tradição caminham juntas, sendo que a tradição reforça a ideia de democracia.
Sendo um conto de fadas uma tradição, também se pode fazer entender que ele é democrático não apenas para os vivos, mas trata-se da “democracia dos mortos” também, como afirma o autor de Ortodoxia. A partir daí, pode-se concluir que a “fé democrática” nos leva a crer que as coisas mais importantes a serem discutidas ou feitas, devem sê-las por homens comuns. Dessa ideia, ele faz uma importante constatação:
“O homem que cita um historiador alemão em oposição à tradição da Igreja Católica, por exemplo, está apelando implicitamente para a aristocracia, pois apela para a superioridade de um perito contra a extraordinária autoridade de uma multidão.” (Ortodoxia, p.77) e completa: “A lenda é, geralmente, criada pela maioria das pessoas sãs da cidade, ao passo que o livro é, geralmente, escrito pelo único homem louco dessa mesma cidade. […] Se damos tanta importância à opinião dos homens comuns quando se trata de assuntos cotidianos [como o voto], não podemos desprezar essa mesma opinião quando se trata da história ou de fábula.” (Ortodoxia p.77-78).
Nota-se então, a legitimidade de histórias de fadas a partir da tradição e, que tendo alguém a considerá-las ignorantes, ou insensatas, está sendo, de certa forma, contra a legitimidade, ou sanidade de seu próprio povo.
A partir dessa síntese inicial de legitimidade, Chesterton apresenta-nos algumas ideias fundamentais sobre o conto de fada. A primeira delas foi passada pela sua babá, a “grave sacerdotisa da democracia e, ao mesmo tempo, da tradição”(p.79), e foi o ensinamento de que os contos de fadas são absolutamente racionais. Chesterton afirma que contos de fadas são mais normais que o racionalismo ou religião:
 “O País das Fadas não é outra coisa senão o ensolarado país do bom senso. Não é a Terra que julga o Céu, mas sim o Céu que julga a Terra […] Conheci o pé de feijão mágico antes mesmo de ter experimentado feijão; tive a certeza do homem da lua, antes mesmo de estar certo da lua.” (p.79)
Nota-se então que os contos de fadas nos introduzem ao mundo de uma maneira positiva, certamente. Também não muito fantasiosa, e nem nos tira do nosso mundo, pois, como mesmo afirma o autor, o mundo já é fantástico o suficiente quando somos crianças. Ele complementa “Uma criança de sete anos ficará impressionada se lhe disserem que o pequeno Tomás abriu uma porta e viu um dragão: mas uma criança de três anos já ficará impressionada se lhe disserem apenas que o pequeno Tomás abriu uma porta.” (p.85).
Além dessa introdução ao nosso mundo, o Querubim Gigantesco também traz à tona a ética e a filosofia dos contos de fadas. Ele cita alguns exemplos além de falar que se fosse explicar nos mínimos detalhes, apontaria muitos princípios e detalhes, mas exemplifica bem com contos que conhecemos, como por exemplo, em Jack, o Matador de Gigantes, e trata-o como “… uma revolta humana contra o orgulho considerado como tal.” Também há a lição de Cinderela, que é a exaltação dos humildes, ou também uma das mais belas, que ocorre em A Bela e a Fera, que “uma coisa deve ser amada antes que seja digna de amor.” (p.80)Com tantos exemplos, Chesterton surpreende ao afirmar que individualmente esses aparatos não sejam de interesse, mas sim o conjunto de cada um deles agindo na mente da criança. Segue o trecho:
 “Não me interessa, porém, nenhum dos estatutos da Terra dos Elfos isoladamente; interessa-me, apenas, o espírito da totalidade da sua lei, o qual aprendi antes mesmo de saber falar e que ainda hei de conservar quando não puder mais escrever. Interessa-me determinada maneira de encarar a vida, maneira essa que aprendi nos contos de fadas e que, desde então, foi serenamente corroborada pelos fatos mais simples.” (p.81).
Fatos simples estes, que representam também a lei do País das Fadas; não leis, como as de Newton, ao ver que a maçã caiu e atingiu-lhe a cabeça. São leis lógicas e fundamentais, necessárias. Para ele, os cientistas não conseguem “ver a distinção que há entre a verdadeira lei, a lei da razão e o simples fato de maçãs caírem. (p.82), afirma, também, que eles insistem em observar coisas dissociadas para descobrir uma respostaTrazendo para cá a metáfora que ele usa, é como um amante abandonado que não é capaz de dissociar a lua do seu amor, ou como um materialista que não dissocia a lua das marés. “Em ambos os casos não há ligação alguma, a não ser o fato de terem sido juntas as duas coisas.” (p.85) e prossegue: “Mas o frio racionalista do País das Fadas não vê razão por que, falando abstratamente, a macieira não possa produzir tulipas vermelhas, visto que assim acontece, algumas vezes, no seu país.”(p.85).
Ou seja, percebe-se de certa maneira, uma educação da imaginação, em que arbitrariamente certas coisas sejam capazes de acontecer no País das Fadas e que as pessoas que não lá habitam acham “mentirosas” ou então “impossíveis”, por ausência de um método “científico”, mais materialista, e com base nisso, criticam os que lá vivem ou que aprovam tal visão.
Os contos de fada, além disso, também podem, de certa forma, auxiliar na educação da criança, além da imaginação e do primeiro contato com as coisas maravilhosas do mundo. Chesterton percebe que grande parte da Ética dos Elfos e situações do País das Fadas envolvem o “se”. Sempre há uma condição e que muitas vezes tem de ser feita para que se alcance a felicidade. Ele chama essa ideia de “Filosofia da Fada madrinha”, e que serviu de efeito para Gilbert não ser “revoltado” como os rapazes de seu tempo. Ele afirma que poderia ter se oposto a qualquer imposição que julgasse ruim, mas que, pelo contrário, nunca a fez pelo simples fato de acha-la misteriosa. Exemplificando, como Chesterton, a Cinderela poderia indagar: “Por que eu tenho de sair do baile à meia-noite?” e receberia como resposta: “Por que podes ficar lá até a meia-noite?” (p.90), demonstrando essa não oposição ao mistério.
Já sobre o mundo real, material, G.K. Chesterton tinha duas convicções:
“A primeira é que este mundo é um lugar selvagem e extraordinário, que podia ter sido muito diferente, mas que, apesar de tudo, ainda é agradável. A segunda convicção é que, perante tal excentricidade e prazer, devíamos ser modestos e submetermo-nos aos mais bizarros limites de tão bizarra amabilidade. Mas […] Encontrei o mundo moderno às voltas com o fatalismo científico, afirmando que as coisas são como sempre deviam ter sido, sucedendo-se, invariavelmente, desde que o mundo é mundo. A folha da árvore é verde porque nunca poderia ter sido de outra cor. Segundo a filosofia dos contos de fadas, devíamos nos sentir satisfeitos por a folha ser verde, exatamente porque ela podia ter sido vermelha. Para o filósofo dos contos de fadas, é como se a folha se tivesse tornado verde um instante antes de ele ter olhado para ela.” (p.92-93)
E com esse mundo sendo o que deve ser, muitos adultos ainda possuem receio do medo que o País das Fadas pode causar. Saindo agora de Chesterton, e entrando num texto – de nome: “Três maneiras de escrever para crianças” – escrito por C.S. Lewis (autor das Crônicas de Nárnia), vejamos o que os contos de fadas podem trazer. Aqui, Lewis, afirma que há duas possibilidades de acusação de medos que podem ser causados em crianças por um conto de fadas, mas descarta uma. A primeira, diz que “não devemos fazer nada que possa despertar na criança medos fantasmagóricos debilitantes e patológicos contra os quais a coragem comum nada pode: as chamadas fobias.”; já a segunda diz que “devemos tentar manter a criança alheia ao fato de que nasceu num mundo onde há morte, violência, ferimentos físicos, aventura, heroísmo e covardia, onde há o bem o mal.”. (As Crônicas de Nárnia – Volume Único, p.748).
Na primeira afirmação, Lewis chega até a concordar: esse tipo de medo ali deve ser evitado, pois nenhuma fobia é saudável para a criança. Ele mesmo afirma que tinha um terrível medo de insetos, e que esse medo poderia ter sido despertado por uma leitura, porém, não saberia dizer o que fez isso, mas também aprendeu outros valores que são mais importantes que esse medo.
Entretanto, negar à criança a segunda opção seria criar um escapismo muito além do que uma mera história de fadas daria a ela. Levando em consideração que o autor lutou na primeira Guerra Mundial e viveu durante a segunda, é considerável mostrar para a criança que ela provavelmente conhecerá pessoas cruéis, que terá de ser corajosa e que se machucará, logo, os contos de fadas criariam base para todas essa situações e noções de caráter e até “consulta” para situações que possam vir a ocorrer.
Jack também coloca em pauta a discussão que ocorre deveras entre os pais: o garoto será infeliz por não poder viver no mundo mágico em questão, e que vai ser infeliz por não existirem tais criaturas surreais. Lewis, então, afirma que:
“Seria muito mais verdadeiro dizer que o país das fadas desperta no menino um anseio por algo que ele não sabe o que é. Comove-o e perturba-o (enriquecendo toda a sua vida) com a vaga sensação de algo que está além de seu alcance, e, longe de tornar insípido ou vazio o mundo exterior, acrescenta-lhe uma nova dimensão de profundidade.”  (p.747).
E ainda é mais ousado ao afirmar que histórias consideradas realistas, ou de jovens em escolas, por exemplos, podem ser mais prejudiciais neste quesito do que histórias fantásticas, exatamente por uma trazer um mundo real e em que a criança poderia se identificar e, possivelmente, poderia realizar as mesmas ações executadas que os personagens, e é o que não acontece:
“O menino que lê a história “escolar” do tipo que tenho em mente deseja o sucesso e fica infeliz (quando termina o livro) por que esse sucesso lhe escapa; o menino que lê o conto de fadas simplesmente deseja e sente-se feliz no próprio ato de desejar. Sua mente não está concentrada nele mesmo, como acontece frequentemente nas histórias mais realistas.” (p.747).
Então, vê-se que as histórias realistas podem causar mais prejuízos que uma simples história de fadas, que acrescenta uma nova dimensão de profundidade, ao contrário das histórias que “condizem com a realidade”, em que a criança se veria “capaz” de realizar os mesmos feitos, ou viver situações semelhantes, frustrando a criança “incapaz” de realizá-los por se tratar de uma ficção fantasiada de realidade.
E o assunto de realidade, fantasia e frustração nos leva ao Escape, e, por consequência, me leva a um trecho muito admirado por mim e acredito que por todos, que consta na obra “Sobre histórias de fadas”, ou “Árvore e folha”, na mais recente publicação, em que Tolkien, em um ensaio, trata das histórias de fadas de uma forma maravilhosa e faz uma das mais belas metáforas sobre o escapismo – que pode ser notado tanto nas histórias de fadas como na literatura em geral, e que deixo aqui, para finalizar o desenvolvimento da matéria:
“Por que um homem deveria ser desprezado se, encontrando-se na prisão, tenta sair e ir para casa? Ou se, quando não pode fazê-lo, pensa e fala sobre outros assuntos que não sejam carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não consegue vê-lo. Usando o escape dessa forma, os críticos escolheram a palavra errada e, ainda mais, estão confundindo, nem sempre por erro sincero, o Escape do Prisioneiro com a Fuga do Desertor.” (Sobre Histórias de fadas – p.68).
Logo, é possível perceber que os contos de fadas, por mais que sejam criticados, devem ser lidos, e não abandonados, pois, como afirma o próprio Lewis, não se trata de retrocesso ler contos de fadas quando grande, mas sim de desenvolvimento e engrandecimento. Ora, como assim? Pois bem, ele afirmou que, quando adulto, gostava de vinho branco, algo que certamente não gostava quando criança, mas não quer dizer que deixou de gostar de limonada por isso, mostrando que provou, conhece e ainda aproveita os bons sabores da vida.

FONTES:
CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. 1 ed. Campinas – SP: ECCLESIAE, 2013.
LEWIS, Clive Staples. As Crônicas de Nárnia: Volume Único. 1 ed. SP: Martins Fontes, 2007.
TOLKIEN, John Ronald Reuel. Sobre Histórias de Fadas. 2 ed. SP: Conrad, 2010.

Revisado por Paloma Israely