14 de julho de 2015

E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada...

E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada. Que mulher feminista é tudo mau comida. Feminazi, blá blá blá. Você não entende as mulheres extremistas. Você repugna a mulher que se afasta de um homem machista. Você acha palhaçada uma mulher que odeia assobios e cantadas no meio da rua.
Vai ser grande, aviso logo. Mas quem mora em Caxias ou Nova Iguaçu, principalmente mulheres, pode ser interessante ler.
Hoje eu conheci a Amanda. Infelizmente não foi de uma forma agradável nem para mim e muito menos para ela. Saindo do curso, no centro de Caxias, entro no mesmo ônibus que pego todos os dias no mesmo horário, o 115 - Caxias x Nova Iguaçu, que passa por Lote XV, Wona, Belford Roxo, Prata, Posto Treze e finalmente Nova Iguaçu. Com apenas os bancos altos do ônibus e aqueles de trás vazios, eu resolvi ficar em pé mesmo, afinal, não estava cansado e odeio aqueles bancos altos. Coloquei minha mochila no chão e dei play numa música bem alta no iPod. No banco perto de mim tinha uma menina com uma mochila que parecia estar pesada no chão do ônibus. Do lado dela, uma mulher com duas crianças com brinquedos, balões de ar e brindes - pareciam voltar de uma festa de aniversário. A mulher preferiu ir para o banco de trás, onde tinham três lugares vagos, com seus filhos afim de não incomodar a menina. Eu abaixei pra pegar minha mochila e quando ia me preparar para sentar ao lado da menina, um cara entrou na minha frente e sentou. Como era mais velho, aparentava estar voltando do trabalho e tal, eu só coloquei minha mochila no chão outra vez e aumentei mais a música. Com o passar do tempo, fui percebendo que a menina olhava com um olhar desesperado pra mim. Isso estava me incomodando. A mochila dela, agora, estava no colo dela. Eu me senti tão incomodado que acabei guardando o iPod na mochila, ouvir música não estava me agradando. A menina continuava a olhar pra mim com um olhar desesperado. Em um ponto, perto do Wona, uma das crianças estourou um dos balões na parte de trás do ônibus e todo o ônibus levou um susto, inclusive o cara que estava do lado da menina. Quando ele virou pra trás, eu pude ler os lábios da menina que diziam claramente "me ajuda". O cara logo virou pra frente. Ele não esboçava uma emoção. Não olhava para os lados, só para frente. Não se movia nem quando o ônibus balançava demais. Fiquei sem ação. Larguei minha mochila no chão mesmo e fui pra parte fronteira do ônibus, na intenção de avisar o cobrador. Mas tive medo. Tive medo de, quando o cobrador andasse em direção ao homem, ele fizesse algo com a menina. Perguntei qualquer coisa ao cobrador pra disfarçar e voltei ao meu lugar mexendo no celular, passando de uma tela inicial pra outra do iPhone como se estivesse distraído. Guardei o celular no bolso e olhei para a menina. Dei um sorriso e falei bem alto, quase gritando: "Bruna, nem percebi que era você! Você tá muito diferente!" a menina, com a voz trêmula, falou: "É, eu pintei o cabelo e emagreci um pouco. Quanto tempo, João!" Comecei a puxar assunto com ela. Assuntos fictícios e reais. Peguei minha mochila e joguei no colo dela, falando "Segura aí pra mim." O cara teve que se afastar um pouco dela. Eu podia ver agora a mão direita dele que antes eu não conseguia ver. Todo o ônibus ouviu a nossa conversa. Falamos dos pais dela, de como o Romeo - meu cachorro - estava grande, das festas muito legais que ia e de como meu curso estava indo bem e eu estava prestes a me formar. Até que uma mulher e o esposo saíram do ônibus, deixando dois lugares livres na parte fronteira do ônibus. Peguei minha mochila, coloquei nas costas e puxei a 'Bruna' pelo braço. "Vamos sentar lá na frente comigo, liberou lugar." Com todo o ônibus prestando atenção na gente, o cobrador um pouco emburrado por eu estar atrapalhando o sono dele, aquele cara não pôde fazer nada. Fomos eu e 'Bruna' pra bem longe daquele homem. Bruna não era Bruna, era Amanda. Tinha um pouco mais que a minha idade e fazia Direito em Caxias, onde conseguiu uma bolsa admirável. Morava em um lugar em Nova Iguaçu que era realmente escuro e deserto. Ela estava com muito medo. Amanda chorou baixinho, repetindo tudo que o homem cochichou no ouvido dela. Amanda, com os dedos, mostrou o lugar onde o cara colocou uma faca nela. O homem já havia contado seu plano: ele iria com ela até a rodoviária em Nova Iguaçu, onde o número de passageiros do ônibus se reduziria a menos de cinco, e desceria com ela, abraçado, fingindo ser seu namorado ou pai. Levaria ela para qualquer lugar, a estupraria e, se ela fosse boazinha, deixava ela voltar pra casa. Mas ele avisou: "eu gosto de menina quietinha, se você gritar demais eu te meto a porrada, ouviu, sua piranha?"
Amanda estava com medo de pegar o celular para ligar para alguém e não queria ir à polícia sozinha, tinha medo dos policiais - típico, mas, quem não teria? - e o homem não saía do ônibus. Tive a ideia de descer com ela no meu ponto, perto da CEDAE em Belford Roxo onde há um espaço esportivo que está sempre com homens jogando futebol e bebendo cerveja, além de ser bem próximo da Delegacia da Mulher. Desci com ela e, quando olhei pra trás, o homem estava bem atrás da gente. Ele não havia desistido. Entramos no espaço esportivo e fui me aproximando de uns homens que bebiam e escutavam pagode alto. Amanda me segurou pelo braço e disse "Não, por favor, não. Eu só quero a minha mãe." Nesse momento eu entendi a tão chamada misandria. Ela tinha medo de homens, ela estava amedrontada. Aqueles homens provavelmente ajudariam ela, mas ela estava com medo. Ficamos perto do estacionamento do espaço e emprestei meu celular pra ela ligar. O homem, a essa altura, já estava bem longe dali. Ela ligou, a mãe dela chegou e ambas choraram na minha frente. A mãe dela tremia e me abraçou muito forte, repetindo muitas vezes "obrigada, muito obrigada". Expliquei pra elas onde era a Delegacia da Mulher e as duas seguiram seu caminho.
Mas Amanda será só mais uma. Ela foi só mais uma. Ela poderia ter sido só mais uma. Só mais uma menina estuprada. Só mais uma garota violentada. Só mais uma mulher assediada. Eu, muito assustado, peguei meu segundo ônibus a caminho de casa. Fui pensando por todo o caminho em como seria a vida da Amanda a partir de agora, e como seria a vida da Amanda caso tivesse acontecido todos os planos daquele homem. Amanda teria vida depois daquele homem? Quantas Amandas existem no mundo? Quantas Amandas sofrem com isso todos os dias?
E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada. Que mulher feminista é tudo mau comida. Feminazi, blá blá blá. Você não entende as mulheres extremistas. Você repugna a mulher que se afasta de um homem machista. Você acha palhaçada uma mulher que odeia assobios e cantadas no meio da rua.
Eu não conhecia a Amanda e definitivamente não queria tê-la conhecido dessa forma. Mas te digo uma coisa: se Amanda não se considerava feminista antes, agora ela se considera. Não troquei contatos com Amanda, mas quero que ela saiba, onde ela estiver, que eu sinto muito. Eu sinto muito por existirem homens assim. Eu sinto muito por existirem seres humanos assim, Amanda. E provavelmente isso vai ficar na minha mente por um bom tempo, devo ter um ou outro pesadelo. Imagina a Amanda...
Texto : Arthur Lucas Almeida