12 de julho de 2015

Ela é uma gorda bonita

Outro dia vi uma foto da Melissa McCarthy e pensei: “Que mulher lindíssima”. E logo depois eu fiquei pensando no quanto eu mudei ao longo dos últimos anos. Claro que foi uma coisa gradual. Começou quando eu passei de ser uma pessoa que não vê beleza em corpos não padronizados na minha adolescência e início da vida adulta, para alguém que pinçava beleza em algumas mulheres fora do padrão.
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Eu dizia: “A Thaís Araújo é uma negra bonita”. Sempre demarcando a raça antes do elogio, porque parecia errado dizer que a Thaís Araújo era bonita. No caso das mulheres gordas, foi muito mais difícil de enxergar a beleza. Muito mesmo. Eu não conseguia enxergar nos outros e nem em mim. Eventualmente, no dia-a-dia, eu via uma mulher gorda, mas que se enquadrava em todos os outros padrões de beleza (O corpo violão, por exemplo) e eu demarcava sua beleza, dizendo que era uma “gorda bonita”, ou pior, uma “gorda de rosto bonito”. Como se fosse errado localizar as mulheres gordas junto às mulheres magras.
Então, vieram as milhares de campanhas das “mulheres reais”. Não vou mentir, essas campanhas me ajudaram, sim. Entretanto, apenas até certo ponto. Começaram a flexibilizar um pouco os conceitos tradicionais, racistas e gordofóbicos de beleza, mas não o suficiente. Somente o feminismo, e o contato com as mulheres negras e a pequena visibilidade que as mulheres gordas começam a esboçar na mídia mudaram o que eu sentia em relação às mulheres gordas.
De repente, eu comecei a ler o que as mulheres negras diziam a respeito da expressão “uma negra bonita” e não tem como não relacionar com a questão da mulher gorda (veja, eu não quero comparar opressões, somente observar que temos similaridades quando o assunto é beleza não-normativa).
Nenhuma mulher gorda é tratada como uma mulher bonita se colocada junto a um grupo de mulheres magras, por isso temos o hábito de demarcar, esta mulher é bonita dentro do grupo de mulheres gordas. Me desculpe o Vinícius, mas eu não quero que beleza seja fundamental, pois não quero que nenhuma mulher seja obrigada a ser bonita, mas também não quero ver as mulheres negras, gordas, com deficiência como uma subcategoria de beleza. Como se existissem as mulheres verdadeiramente bonitas e as outras, que são meras simulações de beleza.
O exercício de não repetir a expressão “uma negra bonita” me fez confrontar o meu racismo velado à partir da linguagem. É claro que a gente se pergunta se é efetivo, afinal o que nasceu primeiro o preconceito ou a linguagem? Será suficiente mudar a forma como você se expressa? Será que isso vai mudar também como você pensa?
Existe uma expressão em inglês que pode ser citada aqui “Fake it, until you make it”, em tradução livre, finja até que se torne realidade. Se você não consegue deixar de pensar “é uma gorda bonita”, racionalize e diga “é uma mulher bonita”. Porque deixar de ser preconceituoso é um esforço contínuo de racionalidade e empatia. Atacar a linguagem é uma estratégia prática: começar a tratar a doença pelo sintoma, às vezes é o suficiente para alcançar a cura, às vezes não. Contudo, neste momento, o tratamento dos sintomas é urgente.
Quando se trata de gordofobia, estou tentando retirar do meu vocabulário também expressões como “gordice” e “cabeça de gordo”. Acredite em mim, não é fácil. De vez em quando as palavras já saíram e eu não posso mais recolhê-las e guardá-las novamente antes que alguém escute. Mas em relação á frase “uma gorda bonita”, eu percebi que venci a batalha quando vi uma foto da Melissa McCarthy e só consegui pensar: “Que mulher lindíssima” e não “que gorda bonita”. E não apenas isso, mas o fato de eu admirar sua beleza da mesma maneira que fazia, lá na adolescência com as mulheres magras.
As palavras atingem as pessoas com uma força enorme, mesmo um suposto elogio como “você tem um ROSTO lindo” pode gerar um efeito desabonador, afinal, somente o rosto de uma pessoa gorda é considerado bonito. Então a ausência de palavras ofensivas e pretensamente elogiosas (sem ser de fato) causa uma mudança real. Uma mudança que pode ser vista tanto em quem deixa de proferir, quanto em quem costuma ser vítima das palavras ofensivas.
REFERÊNCIA: Lugar de Mulher