5 de julho de 2015

“Tomo muito enquadro na rua só porque sou negro”

 e  — 03/07/15
Jovem que foi preso injustamente pela PM e internado por quase 30 dias na Fundação Casa acha que redução da maioridade penal “não vai resolver nada”
“Na semana, eu tomo praticamente um enquadro por dia”, afirma João Ricardo Gouveia Bernardes. Numa das vezes que foi abordado por policiais militares, o jovem negro, de 19 anos, relata que estava com um colega branco, a quem a polícia perguntou:“Esse neguinho está roubando você”? Quando sai com amigos brancos, João costuma ser o primeiro e às vezes o único abordado,  e a quem perguntam se o celular e o dinheiro que carrega são seus, relata.
A abordagem policial mais traumática a qual foi submetido em sua vida completou um ano em março deste ano. Na madrugada de 17 de março de 2014, João Ricardo foi retirado de sua casa por policiais militares sob a acusação de cometer um assalto a mão armada. Uma das vítimas afirmou que ele teria sido um dos autores do delito, testemunho desmentido posteriormente.
Mesmo depois de provar sua inocência, o jovem, à época com 17 anos, foi levado para a Fundação Casa, onde ficou internado por quase um mês. “A única prova que teria contra mim seria o testemunho da vítima, que inicialmente me reconheceu, mas depois retirou a queixa. O juiz não quis ver o depoimento e nem o vídeo que mostra tudo que aconteceu e que provam a minha inocência. A hora do delito, a hora que os policiais entram em casa, o carro batendo. O juiz cruzou os braços e me deu internação”.
Cor da pele
“Por que o juiz não quis olhar as provas?”, questiona o rapaz. “Acho que ele não cumpriu com o dever dele de ser justo e olhar as provas. Deu no que deu. Eu tinha 17 anos”. Para o adolescente, a cor da pele, mais uma vez interferiu na conduta. O outro rapaz que estava na frente do prédio na hora do assalto, era branco e foi liberado. “Vejo isso como preconceito”.
Na manhã do dia 21 de maio, os jornalistas André Caramante e Bruno Paes Manso, da Ponte Jornalismo, publicaram uma reportagemsobre o caso e apontando os “dez erros que tiraram a liberdade de um inocente”, no blog “SP no Divã”. No período da tarde do mesmo dia, João Ricardo, que teve apoio de coletivos e movimentos contra prisões, foi solto.
Lenta e cega
O desespero que a mãe Valmira Duarte Gouveia passou durante os dias que ficou longe de seu filho ainda é presente. “É com se tivesse acontecido agora há pouco. Foi muito doloroso”.
Para ela, “hoje em dia, se você tem uma corzinha mais escura, é culpado de qualquer coisa”. A mãe de João Ricardo acredita que a culpa do que ocorreu com o filho é da Justiça, “que além de lenta é cega, não vê o que faz. Mesmo com as provas, a pessoa não querer olhar e ainda falar: ‘para mim ele parece suspeito, então manda prender. Isso não é justiça”.
Como um preso
Durante o período em que esteve internado, o rapaz se sentia “como um preso. Você não tem liberdade, não pode fazer nada. Está excluído da população, da sociedade como um todo”. Ele acredita que a redução da maioridade penal “não vai resolver nada. Cada vez vai ter mais criança no crime. O problema não é a maioridade. O que vai mudar é melhorar a educação, o ambiente e não falar que a criança tem que ser presa porque roubou comida”. Sua mãe concorda: “vai funcionar só para pobre e preto, principalmente se for preto”.