14 de dezembro de 2015

Bobagens que ouço sobre o vinho brasileiro

por PETER WOLFFENBUTTEL

GUATAMBU
Estamos na Guatambu Estância do Vinho, com uma linda paisagem de um novo terroir do vinho brasileiro, a Campanha Gaúcha, região que margeia a fronteira com o Uruguai, no extremo sul do Brasil.
E não vai aqui qualquer discussão sobre complexo de vira-lata, de menosprezo ao que é nosso. Bebo vinho brasileiro porque gosto. Entendo um pouco de vinho e aprecio porque me dá prazer e ponto final.
Amigos se encontraram aqui para apreciar, entre outros vinhos e espumantes, um Tannat brasileiro com muito orgulho.
Puxe uma cadeira e vamos conversar sobre alguns injustificados preconceitos que muitos consumidores, comerciantes e, até, enófilos, têm com o vinho brasileiro. Ouço, tem tempo, algumas bobagens que devem ser erradicadas, como:

VINHO BRASILEIRO RESUME-SE AO VINHO DE COLONIAL
Vinho colonial, aqui no Brasil, são vinhos simples, muitos com adição descarada de açúcar e utilizando-se, de modo geral de uvas americanas, não viníferas, como Niágara, Bordo, entre outras. A verdade é que existe muito deste vinho por aí. De fato ainda é consumido por boa parte de fãs que gostam e ficam nestes vinhos e não vejo pecado algum.
Mas a bobagem é dizer que o vinho brasileiro resume-se a este estilo. Hoje temos um avanço reconhecido internacionalmente em função dos vinhos espumantes. Tintos e brancos estão sendo trabalhados com melhoria de vinhedos e técnicas de produção, aliás, como no mundo todo. Novos terroirs como este da Campanha Gaúcha vem sendo mapeado e trabalhado por enólogos experientes. Assim é bobagem afirmar que ficamos só neste estilo de vinho.

VINHO BRASILEIRO É RUIM
Outra afirmação intempestiva. Primeiro porque o conceito de gosto e prazer é muito subjetivo. Diria que não tem vinho ruim e, sim, estragado ou não. Claro que este conceito de prazer pode ser aumentado com experiência em novos vinhos, conversas e encontro de vinhos, leitura, enfim, não há outra saída que não experimentar.
Posso dizer que aqui ou em qualquer lugar deste planeta temos vinhos desequilibrados. E o que é um vinho desequilibrado? O vinho, em tese, precisa ter harmonia entre taninos, álcool e acidez, nos tintos e acidez e álcool, nos brancos. Quando um sobressai ao outro temos um vinho desequilibrado
Já falamos deste delicado equilíbrio aqui.
Entendo, por exemplo que alguns andinos com mais de 16% de álcool, nos tintos e beirando os 15% nos brancos são vinhos desequilibrados e desarmônicos. Eu não gosto.
Claro que temos vinhos muio ácidos, alguns irritantemente ácidos, mas são, em geral, os mais baratos e não podem servir de exemplo a todos.
Importante ressaltar que nossa vocação, principalmente na Serra Gaúcha e Catarinense, são vinhos brancos mais ácidos e tintos de médio corpo que seguem este caminho. Deve-se aos chamados vinhos de montanha, que tem mais frio, mesmo no final da maturação, não concentrando o açúcar para encorpá-los. Assim como alguns famosos, como os Barolos e Brunellos com a Nebbiolo e Sangiovese. Bastante ácidos eu diria. Aí não reclamam compram, pagam bem. mesmo sendo completamente o oposto do que foram procurar, já que a maioria dos consumidores brasileiros não convivem bem com vinhos tintos de médio corpo e acidez marcante. Estão ainda impactados pelo estilo de Robert Parker. O Bob  impôs um estilo tinto retinto e concentradíssimo em aromas e sabores, infelizmente muitos ainda não desmamaram deste tipo de tinto.
GUATAMBU TANNAT

VINHO BRASILEIRO É ESPUMANTE
De fato devido ao sucesso dos espumantes brasileiros alguns podem pensar que se resumem a eles. Nem pensar em tal afirmação. Novos terroir, na última década têm sido explorado. Como a Campanha Gaúcha, aí da foto. Que nos traz tintos muito interessantes. A Tannat, aqui por conta de noites mais quentes no final da maturação ganham mais fruta e perdem aquela rusticidade típica da Tannat. Um exemplo de terroir brasileiro. No mesmo caminho a Merlot e a Cabernet Sauvignon, por aqui. Brancos com a Viognier, Gewürtztraminer e Sauvignon Blanc também vem sendo apresentado e com qualidade.
Na Serra Gaúcha uvas esquecidas trazidas pelos imigrantes do Vêneto e Trento estão ressurgindo, como a Marzemino, Lagrein, Teroldego e Peverela. Um trabalho de artesãos do vinho. Trabalho, este, que não deve ser ignorado, mas sim exaltado e apreciado.
Na Serra Catarinense e Campos de Cima, temos a Sauvignon Blanc e a Pinot Noir, respectivamente, dando belos resultados.
Portanto, não fique só nos espumantes.

VINHO BRASILEIRO É CARO
Mais uma falsa ideia. Temos preços para todos os gostos e bolsos. Alguns valem quanto pesam, outros não. Alguns estão completamente fora de propósito no seu valor, outros não.
Assim como em qualquer lugar deste planeta. Atire a primeira pedra quem não comprou um vinho, andino, por exemplo, que pagou caro e não valia metade. Tem vários por aí. Claro que alguns consumidores ainda são muito vulneráveis aos rótulos e garrafas. Eu ainda bebo vinho, não garrafas e rótulos bonitos.

VINHO BRASILEIRO TEM MUITA QUÍMICA
Ter muita química no vinho é uma expressão moderna, quer dizer vinho trabalhado. Uva desequilibrada nos traz, necessariamente, vinho desequilibrado. Somente sendo equacionado com química na vinícola, por exemplo, correção de açúcar, acidez etc e tal. Normal no mundo todo.
Claro que se faz vinho inclusive de uva. Na chamada química gosto de resumi-la assim.
Química necessária. Todo o vinho para estar pronto depende da química. Não exite vinho sem a intervenção externa.
Química de embelezamento. Aquela que se utiliza, as vezes de forma desnecessária, para enfeitar o vinho, como chip e barricas de madeira, entre outras.
Química do mal. Bem aqui é pesado, são essências químicas que imitam madeira e outros aromas, são corantes e coisa e tal. Não vou esmiuçar este assunto porque não é o motivo da publicação.
Isto, infelizmente, é feito no mundo. Têm mu
ito vinho aí na casa dos R$ 18,00 que atravessou o mundo com muitos comerciantes e Governos ganhado em cima e ele chega para ti na faixa de R$ 20,00. Dois Euros ou um dólar, convenhamos, coisa boa não é.
Prefiro, neste caso, um bom vinho brasileiro nesta faixa de preço. E, olha que existem vários exemplos.
Por fim, lembre-se melhor um bom sanduíche com mortadela em algum boteco do que um almoço caro e ruim em restaurante.
E como falamos de Campanha Gaúcha, vamos de Dante Ramon Ledesma, uruguaio de nascimento, gaúcho de coração e brasileiro por opção, prestem atenção na letra, demais.