14 de março de 2016

O menino da carrocinha de lixo



Havia um menino que todos os dias passava no mesmo lugar junto com seu pai. Observava tudo e todos ao redor antes de segurar as rédeas do cavalo que puxava a carroça sob ele, para que seu pai, num movimento rápido e hábil que estava acostumado a fazer, trancando a respiração, entrar em mais um contêiner de lixo.

Procurava ele ali uma esperança pra um futuro incerto que, só com os materiais catados tinha, talvez, a oportunidade de conseguir. Papeis, plásticos, papelão... - Filho! - exclama o pai - Veja só, encontrei um óculos! E os dois riem colocando o óculos e fazendo caretas.
Mas o óculos não escondia o olhar distante do menino que ainda segurava as rédeas para firmar a carroça em plena ladeira, observando as pessoas que passavam na calçada. 

O que será que ele pensava? Será que ele pensava que estar com seu pai pela cidade toda, de contêiner a contêiner, era como uma ventura? Será que ele olhava as pessoas na rua e se imaginava como algumas delas, levantando cedo, vestindo uma camisa, sapatos, pegando sua pasta e indo trabalhar, no caminho passando na padaria para comprar um café? Ou ainda, indo para a faculdade? Enfim, o que se passa pelo pensamento de um menino carroceiro?

Bibiana Rabaioli Prestes, 14 de março de 2016. Inspirado nas crianças carroceiras de Santa Maria, Rio Grande do Sul.